O ex-ministro das Finanças grego Yanis Varoufakis afirmou este sábado em Coimbra que Portugal só não foi à "bancarrota completa" devido à atuação do presidente do Banco Central Europeu (BCE), Mario Dragui.

"A única razão de que [Portugal] não foi à bancarrota completa é pelo que Draghi tem feito", sublinhou Yanis Varoufakis, afirmando que, caso o BCE não tivesse avançado com o programa de compra de títulos de dívida "já não havia euro".


No entanto, apesar de sublinhar a importância da atuação do BCE, o ex-ministro grego recordou que a maior da dívida que esta instituição compra "é alemã", que tem taxas de juro "muito baixas".

"Draghi gostaria de tentar comprar dívida portuguesa ou grega, mas não pode, porque tem esta jaula de ferro que é o Tratado de Maastricht e as regras do BCE", frisou o economista, que discursava na aula inaugural dos programas de doutoramento do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra.


Yanis Varoufakis teceu também duras críticas ao próprio mecanismo de estabilidade europeu, que usa "instrumentos financeiros como o Lehman Brothers usava para se financiar", apontando ainda para a "desunião bancária" que há na Europa.

"Precisamos de um novo modelo de políticas", defendeu, considerando que durante a crise se fez "muito marketing", mas as regras e instituições europeias, "se se olhar para cada uma por dentro, o que se encontra dentro delas é mais fragmentação e mais desunião".

Durante a conferência, perante uma sala onde as 472 cadeiras não foram suficientes, Varoufakis questionou ainda porque é que, numa sociedade em que a inteligência "dos jovens é mais alta do que nunca", os políticos de hoje são mais inferiores que os políticos de ontem.

Hoje, pessoas como Willy Brandt (antigo chanceler alemão), "não iriam para a política", porque hoje um político vale pela "capacidade que tem de repetir o mantra".

Na conferência de imprensa posterior ao seu discurso na Faculdade de Direito de Coimbra, Varoufakis falou também da necessidade de se criar os Estados Unidos da Europa.

Como primeiro passo para essa futura criação, o economista propõe que haja uma maior transparência junto dos pólos de decisão europeus.

Como exemplo, aponta para a um 'livestreaming' (transmissão em direto pela Internet) das reuniões do Eurogrupo ou a publicação "de todos os documentos das negociações com os Estados Unidos da América sobre o TTIP [Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento]".

Posteriormente, seria necessário, num espaço "de meses", analisar e começar a pensar numa resposta para "a dívida pública, a crise bancária, a pobreza e a falta de investimento".

O terceiro passo, diz o ex-ministro grego, seria criar "uma assembleia constituinte de europeus para terem uma séria discussão de sobre como devem ser os Estados Unidos da Europa", devendo prosseguir, entre "cinco a dez anos", mediante os resultados dessa assembleia, com a constituição de "uma nova Europa e o fim dos tratados irracionais".

Para Varoufakis a Europa só tem duas soluções: "ou fragmenta e implode ou vai ser os Estados Unidos da Europa".