Em dia de protesto de taxistas no Porto, o Presidente da República acabou por se cruzar com a revolta dos profissionais do setor quando ia para um evento privado, que não constava na agenda pública do chefe de Estado. Marcelo Rebelo de Sousa pediu paciência aos taxistas, que acusam o Governo de "assobiar para o lado" perante aqueles que contribuem para uma "economia paralela". Falam de plataformas de transporte como a Uber e a Cabify.

Eu promulguei um diploma que está em vigor sobre a matéria. É um diploma que tem de ser aplicado e vai sendo aplicado. Outro diploma está pendente no Parlamento. Há que esperar para ver o que o Parlamento decide"

O Presidente refere-se ao decreto-lei que estabelece regras específicas aplicáveis à prestação de serviço público de transporte de passageiros flexível, que promulgou há mais de um ano, em agosto do ano passado. Já o Governo apresentou uma proposta ao Parlamento para regulamentar a atividade daquelas plataformas e a discussão começou em março, ainda não tendo sido finalizada.

No âmbito do protesto, o presidente da Comissão dos Profissionais de Táxi do Porto (CPTP), Pedro Vila, questionou o Presidente sobre os motivos que o levaram a não responder aos apelos dos taxistas, relembrando que Marcelo já fez parte do setor, em 1989. Os jornalistas insistiram também em saber porquê, mas o chefe de Estado não respondeu. Prometeu falar com os taxistas no final do evento em que compareceu.

A dor de cabeça dos taxistas continua. Queixam-se de concorrência desleal. A ação de protesto contou com cerca de 50 taxistas, junto à Estação de Campanhã, pelo cumprimento da Lei 35/2016 contra o transporte ilegal de passageiros.

O protesto de hoje aconteceu no mesmo dia em que a Uber perdeu a licença para operar em Londres, com efeitos a partir do fim do mês. Uma medida vai afetar mais de 40 mil motoristas. Uma notícia que Marcelo não quis comentar, voltando a remeter para o caso português: "Temos de esperar, eu não me pronuncio sobre diplomas que estão em comissão. Temos de ver se o Parlamento se decide no sentido de maior abertura para um lado ou menor abertura".

Governo "assobia para o lado"

No âmbito do protesto levado a cabo na Invicta, e que juntou cerca de 50 taxistas, o presidente da Comissão dos Profissionais de Táxi do Porto acusou o Governo de não apoiar quem contribui para a economia nacional e “assobiar para o lado” para os que contribuem para uma “economia paralela”.

Pretendemos saber o porquê de um Governo, que se diz de esquerda, mas que de esquerda não tem nada, (...) que não apoia quem contribui para a economia nacional e assobia para o lado para quem contribui para a economia paralela”

O também membro da CPTP  estendeu mesmo críticas ao ministro do ambiente, João Matos Fernandes, e ao seu Secretário de Estado. “Temos um ministro do ambiente e um secretário de Estado que são os inimigos número um dos táxis e não sabemos porquê”.

O presidente da comissão deixou também “um pedido de desculpas aos utentes” pelo “embaraço” causado, sublinhando que está em causa “a sobrevivência do setor”.

Já não é o futuro, mas o presente [que está em causa], devido à ameaça das plataformas eletrónicas que neste momento já estão em número superior ao contingente de táxis na cidade do Porto. É um lobo vestido com pele de cordeiro”.

Questionado sobre o motivo que levou a CPTP a organizar a concentração em Campanhã, Pedro Vila explicou que aquele local corresponde ao aeroporto dos taxistas “devido ao movimento e às pessoas que tem”, frisando ainda que a iniciativa pretende também fazer chegar a voz da classe junto da opinião pública.

Quanto à mobilização do protesto, que começou as 17:00, o presidente da CPTP acredita que até ao fim da iniciativa vá atingir “um número substancial" e vá "exceder as expectativas”. Adiantou ainda que apesar de desejar não ter que fazer mais ações de protesto, estão previstas outras iniciativas semelhantes.

Já Carlos Alberto Lima, vice-presidente da Federação Portuguesa de Táxis, disse estar sempre “solidário com os colegas” que lutam contra a “Uber ou qualquer organismo ilegal”.

"Pretendemos o que pedimos há três anos, que se vão embora os ilegais ou que se legalizem. Nós não temos medo da Uber legalizada, agora que se legalizem ou que se vão embora (...). É uma concorrência muito desleal”, lamentou, salientando que com a entrada destas plataformas sentiu uma quebra “muito grande” nas receitas, na ordem dos 30%.