Há dois anos em Portugal, primeiro com a PT, a Altice acaba de entrar no setor da comunicação social, com a compra da Media Capital, dona da TVI e TVI24. O grupo francês garante “orgulho” nesta “oportunidade única”, um negócio avaliado em 450 milhões de euros.

É a primeira vez que juntamos a maior empresa de telecomunicações com a maior empresa de comunicação social. Estamos muito entusiasmados com esta associação".

O presidente executivo Michel Combes anunciou durante uma conferência de imprensa que durou 1h20m, que “o primeiro investimento vai ser feito no digital”, aproveitando as capacidades de distribuição para o móvel e para o fixo. Com a nossa capacidade tecnológica será o primeiro negócio em que queremos investir”.

Uma medida integrada numa estratégia mais ampla: “O que pretendemos fazer com a Media Capital é aquilo que fizemos com a PT, aproveitar os melhores ativos do país, desenvolver, fazer crescer a companhia”.Não só dentro como fora de Portugal. O CEO usou o verbo “exportar” para ilustrar ao que vem.

 A nossa intenção é fazer crescer a Media Capital em Portugal e exportar a Media Capital para fora do país”.

De que forma? A ideia é “aumentar o portfólio da Media Capital”. Isso já foi feito em França, com a BFM, o canal de notícias mais visto. “Achamos que é possível desenvolver novos canais para as várias plataformas e que o negócio pode crescer aí, também”.

Michel Combes lembrou que a TVI já emite para fora de Portugal e tem sete canais próprios. Porém, ainda há caminhos por abrir a esse nível. O compromisso é o de “levar programas televisivos e canais” para os diferentes países onde a Altice tem negócios e onde há comunidades portuguesas, como por exemplo os EUA.

Há uma forte capacidade de produção na Media Capital, como sabem muitos dos programas são produzidos internamente”

A PT também ganhará com isso, porque a sua oferta sairá enriquecida, mas não se pretende “restringir” as novidades aos clientes da operadora Meo. “A ideia não é que conteúdos sejam exclusivos para a PT. Vão enriquecer oferta para os clientes com a melhor empresa de media em Portugal”, notou o CEO da PT, Paulo Neves.

O presidente executivo da Altice levantou pouco o véu, mas falou em “novas redes, novos canais. “Temos de ver o que vai fazer sentido para os consumidores”.

Queremos que a Media Capital cresça e se torne mais importante ao nível de notícias locais, nacionais e internacionais. Com estratégias ao nível de conteúdo, com produção de séries e filmes”

"Não estamos a despedir na PT, não há qualquer intenção de fazê-lo na Media Capital"

Uma coisa é certa: continua a contar com Rosa Cullell para essa análise e que fique se mantenha à frente da administração da Media Capital. “A companhia tem sido muito bem gerida, num contexto difícil, em que publicidade desceu nos últimos anos”, justificou.  A gestora também disse que quer ficar. E que quer ficar com a equipa que já existe.

Temos uma grande equipa e achamos que somos capazes de fazer boa televisão, boas rádios. Estamos na transformação digital. As sinergias que vamos ter com a Altice vão ajudar a Media Capital na sua transformação. Espero bem que consigamos avançar para transformação digital em termos de canais, radio digital. Fazer isso com equipa de Media Capital, que tem uma equipa de jornalistas fantástica, que sabe de entretenimento e temos a produtora Plural, a maior da Península Ibérica”, destacou Rosa Cullell.

O CEO da Altice voltou a tomar a palavra para dizer que para além de exportar, há outro verbo que norteará a estratégia dos franceses na Media Capital: “Agora é sobre crescer”. E, por isso mesmo, fez questão de sublinhar:

Primeiro, não estamos a despedir pessoas na PT e, sem segundo lugar, não há qualquer intenção de despedir pessoas na Media Capital”.

Isso mesmo foi sublinhado pelo CEO da PT, Paulo Neves, a rejeitar "liminarmente" despedimentos na operadora de telecomunicações, que tem "dos melhores colaboradores que existem neste país". "O que estamos é a colocar as pessoas em empresas de especialidade".

"Não estamos aqui a fazer política"

Sobre o ambiente político – quando ainda esta semana, no debate da Nação, o primeiro-ministro disse temer pelo futuro da PT e dos trabalhadores, com os cortes e transferências de funcionários em curso – a o CEDO Altice diz que se sente bem recebido no país.

Não estamos aqui para fazer política. Estamos a apresentar um forte projeto industrial para o país, é nisso que temos orgulho e é isso que queremos desenvolver em Portugal"

 

Tive conversações com diferentes forças políticas e somos bem-vindos. Damos todos os dias razões para nos apoiarem. Tenho a certeza que somos bem-vindos (…) Estamos tão apaixonados pelo projeto, que estamos convencidos que vamos conseguir partilhá-lo com todos, incluindo no plano político”

Preço é "justo"

O negócio está ainda dependente de autorizações regulatórias. Michel Combes não se mostra muito preocupado. “Na minha perspetiva não há qualquer problema de monopólio. Acredito que o processo vai correr bem”. A Autoridade da Concorrência tem três meses para se pronunciar.

Quanto ao preço, pensa que é justo para ambas as partes.  “450 milhões de euros, 10 vezes mais do que o lucro dos últimos dez meses. É esse o potencial de desenvolvimento que vemos”.

Novidade no grupo: o Altice Bank

A imprensa antecipou que a Altice vai entrar no negócio bancário, com o Altice Bank. É um projeto em vista, ainda numa fase inicial, segundo Michel Combes. 

Podemos ter algum projeto nesse âmbito. Os jornalistas avançam mais rápido do que estamos a fazer. É verdade que assegurámos o nome Altice Bank e também é verdade que temos uma licença de pagamentos e pedimos uma extensão para uma licença bancária".

Se vier mesmo a concretizar-se, será uma "extensão natural do nosso negócio".