O governador do Banco de Portugal (BdP), Carlos Costa, defendeu hoje que o endividamento pode ser virtuoso se usado para «gerar rendimento futuro», afirmando que o erro português foi utilizá-lo «para finalidades que não geravam riqueza adicional».

Carlos Costa falava perante uma plateia de várias dezenas de alunos da Escola Secundária Filipa de Vilhena, no Porto, onde, para assinalar o Dia Mundial da Poupança, participou numa «aula» do Conselho Nacional de Supervisores Financeiros inserida na iniciativa «Dia da Formação Financeira de 2013», com o lema: «A formação financeira está nas escolas, Não fique de fora».

«Não é estritamente verdade que endividar-se seja mau, depende de para quê que se endivida. Se o endividamento se destina a promover um investimento que vai gerar rendimento futuro, que, por si mesmo, gera o reembolso desse endividamento, significa que não só mantemos o mesmo nível de consumo que tínhamos à partida, como vamos ainda aumentar a capacidade futura de rendimento após o reembolso do empréstimo», afirmou o governador.

Numa altura em que a situação do país é frequentemente justificada com o facto de este ter vivido «acima das possibilidades», Carlos Costa explicou aos alunos que tal implicou, de facto, o recurso ao endividamento, mas ressalvou que este só se tornou prejudicial porque «gerou uma despesa que não produz rendimento adicional».

«Endividamo-nos sem que o nosso produto tivesse crescido na mesma proporção ou tivesse recuperado, mais tarde, na mesma proporção. O nosso endividamento não foi acompanhado pelo produto potencial, não temos capacidade futura de gerar rendimento para pagar dívidas passadas. Se o tivéssemos feito, estaríamos num círculo virtuoso de endividamento», esclareceu.

Num paralelismo com o que acontece a um jovem que «tem que pedir ao pai para antecipar a mesada do mês seguinte» porque a do mês em curso já se esgotou, Carlos Costa comparou a troika a um «padrasto» que, após a recusa do pai em fazer mais adiantamentos de mesada, «pôs ao dispor recursos, mas com condições extremas».

«Não é diferente de uma família: vocês vão pedindo dinheiro ao vosso pai e ele vai dizendo está bem, este mês ainda aceito, o próximo mês ainda aceito, mas alto aí, agora acabou¿. Nós tivemos que encontrar não um pai, mas um padrasto, que pôs ao dispor recursos, mas com condições extremas. E é por isso que estamos num programa de ajustamento, as condições a que estamos sujeitos hoje não são diferentes das condições que um pai impõe a um filho quando sente que ele está em derrapagem financeira», explicou.

Atribuindo a origem da atual crise portuguesa a uma «utilização de recursos superior à capacidade de geração de rendimento», o governador do BdP destacou ainda o impacto que a crise internacional teve no agravamento da situação interna.

«Em cima da crise portuguesa, soma-se uma outra crise, internacional, que vem agravar as dificuldades. Dizer que esta crise é a razão da nossa crise é um erro, [mas] dizer que a agravou, claro que sim, estivessem os mercados mais otimistas e seguramente teríamos mais balão de oxigénio para continuar numa trajetória que, seguramente, nos levaria mais longe», concluiu.