O economista Eduardo Catroga defende que será melhor para Portugal ter um programa cautelar leve e que caso não o consiga obter, esse ónus deve ficar do lado dos parceiros do Norte da Europa.

«Perderam-se oportunidades para recalibrar ajustamento»

«Seria mais avisado para a economia portuguesa a negociação de um programa cautelar porque ainda temos muito trabalho a fazer», salienta o último ministro das Finanças no último governo de Cavaco Silva, adiantando que face às duas modalidades de cautelar que existem, «a modalidade mais leve seria a mais adequada».

Eduardo Catroga, que foi a personalidade escolhida pelo PSD para representar os social-democratas como elo de ligação com o Governo de José Sócrates quando este negociava o programa de ajustamento com a troika tem, no entanto, dúvidas de que esse programa venha a ser alcançado.

«O Governo deve tentá-lo», sublinha o economista, apesar de reconhecer que «a Alemanha e os países da Europa do Norte não se mostram muito interessados», mas, assim sendo, prossegue Catroga, «punha o ónus de não haver um programa cautelar leve nos países da Europa do Norte que não o querem como já não quiseram em relação à Irlanda».

Não havendo o programa cautelar leve, com condições para Portugal mais ligeiras, a alternativa será, «no mínimo, dos mínimos» obter desses países «uma declaração política forte, tipo carta conforto, quase garantia» que seja vista pelos mercados «como uma garantia, como uma rede de segurança».

Mas esta não é o verdadeiro cautelar que Eduardo Catroga diz desejar para Portugal quando a troika sair de Portugal. O cautelar desejado, e que Eduardo Catroga também não acredita que se concretize, era que PSD, CDS e PS chegassem a um acordo sobre as políticas fundamentais a seguir.

«O melhor programa cautelar seria que antes das eleições [legislativas] os três partidos que concordaram com o programa da troika se pusessem de acordo quanto às políticas fundamentais que há que desencadear para o pós-troika», defende o economista.

O objetivo era garantir que «independentemente dos resultados eleitorais, essas linhas fundamentais pudessem ter apoio maioritário na Assembleia da República qualquer que fosse o modelo governativo após o ato eleitoral dos finais de 2015».

«Mas esse acordo interpartidário vai acontecer», interroga-se Eduardo Catroga, para logo responder que a «probabilidade [é] muito reduzida».

O apelo a um cautelar, ainda que leve, e a um acordo entre os partidos do arco do poder é justificado por Eduardo Catroga com as incertezas que ainda pairam sobre a economia portuguesa.

«Apesar da diminuição da perceção de risco por parte dos investidores na nossa dívida pública, ainda não somos investment grade», lembra o economista reconhecendo que, caso se continue a trabalhar bem, essa meta poderá ser atingida.

Mas «os mercados são muito voláteis», lembra, adiantando que há «riscos geopolíticos, riscos de política interna, reações do Tribunal Constitucional e lutas intestinas no nosso espetro político», tudo riscos que levam o economista «a pensar que valeria mais prevenir do que remediar e portanto negociar um programa cautelar».