Os municípios devem assumir uma maior responsabilidade nos transportes públicos, defendeu esta terça-feira o especialista em mobilidade urbana Tiago Farias, frisando que a qualidade do serviço não é viável com um modelo de negócio sustentado apenas nas receitas dos bilhetes.

No âmbito da conferência "Mobilidade: Desafios Globais com Soluções Locais?", promovida pela Direção-Geral das Autarquias Locais (DGAL), que decorreu hoje em Lisboa, Tiago Farias disse à Lusa que se forem os municípios a definir as linhas de circulação dos autocarros e as tarifas a aplicar conseguem fazê-lo “de uma forma mais eficiente” face à responsabilidade que têm de “desenhar o espaço público e oferecer as condições para que coexistam automóveis, peões, bicicletas e transporte público”.

Para o especialista em mobilidade urbana e professor do departamento de Engenharia Mecânica do Instituto Superior Técnico da Universidade de Lisboa, para ter qualidade, o transporte público não pode estar dependente apenas das receitas dos bilhetes, admitindo que deve haver apoio do Governo.

Os custos associados aos transportes públicos “não são totalmente cobertos pelas receitas da bilhética”, precisou Tiago Farias, sublinhando que “enquanto isso não for assumido como uma regra do jogo, é muito difícil poder oferecer um produto muito competitivo ao automóvel individual”.

“Tem que haver um equilíbrio entre o que se pretende oferecer à cidade e torná-la mais sustentável”, expressou o orador da conferência, acrescentando que “depois há ganhos indiretos muito grandes em termos de saúde pública, de redução de tráfego e de qualidade de vida”.

Segundo Tiago Farias, as áreas metropolitanas do Porto e de Lisboa “são cruciais para todo o sucesso da sustentabilidade da mobilidade” em Portugal, pois é onde existem “os grandes desafios em termos de mobilidade urbana”.

“Portugal andou 20 anos completamente enganado, pois nenhuma cidade teve a oportunidade de planear a sua rede de transportes”, revelou o especialista, lembrando que começaram a nascer novos produtos de mobilidade como o ‘tuk tuk’ ou a Uber sem que os municípios soubessem como fazer a gestão.

As autarquias têm “uma responsabilidade grande no planeamento e na gestão dos seus produtos de mobilidade”, frisou.

Acontece é que, em muitos casos, não é a autarquia que decide e que até em muitas situações nem se quer é a autarquia, nem a cidade, que opera esses produtos, o caso do Porto e de Lisboa”, mencionou Tiago Farias, salientando que há uma grande necessidade de interligação entre quem gere o terreno da cidade, quem gere os instrumentos e quem regula.

Em relação aos desafios globais relacionados com a indústria dos transportes no que diz respeito ao ambiente, as alterações climáticas e ao consumo de combustíveis fosseis, o orador disse que há uma dependência muito grande do transporte urbano e rodoviário em relação ao consumo de petróleo.

Tiago Farias propôs três formas de enfrentar os desafios: “a adoção de combustíveis alternativos, de sistemas de propulsão alternativos e de tecnologias que sejam menos dependentes da gasolina e do gasóleo”; a escolha por transportes públicos ou partilha do veículo; e a alteração comportamental em relação a como as pessoas gerem a sua vida e não apenas as suas viagens, “muito a ver com conceitos de proximidade, em que nas cidades mais avançadas do mundo, as pessoas deslocam-se menos porque estão mais próximas dos seus destinos”.

A conferência "Mobilidade: Desafios Globais com Soluções Locais?" integrou o programa da Semana Europeia da Mobilidade, promovido pela Câmara de Lisboa.

Mais de sessenta municípios portugueses estiveram envolvidos, desde a quarta-feira até hoje, nas iniciativas da Semana Europeia da Mobilidade, que pretende promover a utilização de transportes "mais amigos do ambiente", disse à Lusa o presidente da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), Nuno Lacasta, que coordena a iniciativa a nível nacional.

O número de municípios participantes nesta iniciativa, que vai na sua 14.ª edição, será semelhante ao de anos anteriores, sendo que em 2014 tinham-se envolvido nas atividades da Semana Europeia da Mobilidade 64 autarquias, com 73 localidades inscritas.

A Semana Europeia da Mobilidade foi lançada pelo Conselho Europeu em setembro de 2000, sendo essa data assinalada anualmente em vários países da União Europeia, incluindo Portugal.