O economista francês Thomas Piketty defendeu esta segunda-feira, em Lisboa, um sistema fiscal “mais favorável às novas gerações”, que seja menos penalizador dos rendimentos do trabalho e incida mais sobre o capital acumulado.

Perante o auditório repleto da Fundação Gulbenkian, o autor do best seller “O Capital no Século XXI”, que já vendeu mais de 1,5 milhões de cópias em todo o mundo, quis deixar uma mensagem otimista, sublinhando que a principal conclusão do livro “é que há sempre alternativas.”

“Já tivemos crises de dívida no passado e encontrámos sempre uma solução para dar a volta”, salientou o economista, apelando a “soluções europeias” para resolver a crise da zona euro, já que todos os países detêm dívida uns dos outros.


Piketty sugeriu, designadamente, que se recuperem propostas como a que foi feita em 2011 por um grupo de especialistas alemães e que apontava para a emissão conjunta de títulos de dívida, incluindo um fundo para a amortização da dívida.

No entanto, “muito se pode fazer ainda a nível nacional”, destacou, salientando que “a falta de confiança” da zona euro “não é desculpa para não fazer a reforma do sistema fiscal que pode ser feita a nível nacional.

A este propósito, afirmou que “o sistema fiscal deve ser mais favorável às novas gerações”, penalizando menos os rendimentos e mais o capital acumulado, como a propriedade ou as heranças, uma das medidas propostas no plano macroeconómico do Partido Socialista (PS).

O secretário-geral do PS, António Costa, assistiu esta segunda-feira à conferência do economista na Fundação Gulbenkian e já se tinha reunido anteriormente com Piketty, num encontro em que ambos teceram críticas ao modelo de austeridade que a Europa tem seguido.

O académico francês mostrou-se também contra a redução dos impostos sobre as empresas, como o IRC.

“Se formos reduzindo sempre, qualquer dia não temos impostos sobre as empresas. Como fazemos nessa altura, vamos subsidiar as empresas?”, questionou.


Thomas Piketty sublinhou que a acumulação do capital levanta novos desafios para os políticos e frisou que as grandes fortunas crescem a um ritmo de seis ou sete por cento ao ano, três vezes mais do que a média da economia, dizendo: “isto não pode acontecer para sempre”.

Em “O Capital no Século XXI”, Piketty defende que a taxa de rendimento do capital é sempre superior à taxa de crescimento, pelo que a dinâmica do capitalismo conduz inevitavelmente a uma distribuição desigual dos rendimentos e a uma crescente concentração da riqueza.

A obra, que despertou as atenções internacionais em 2014, criou polémica, suscitou críticas exacerbadas, mas também rasgados elogios, como o do prémio Nobel da Economia Paul Krugman, que considerou o livro como o mais importante da década.

Antes da conferência, Thomas Piketty encontrou-se com o secretário-geral do Partido Socialista, António Costa, o ex-reitor da Universidade de Lisboa e anunciado candidato à Presidência da República, Sampaio da Nóvoa, e o dirigente do partido Livre e ex-eurodeputado Rui Tavares.