O Sindicato da Construção acusou hoje a Soares da Costa de “tratamento discriminatório” dos trabalhadores no pagamento dos salários em atraso e vai promover uma concentração frente à empresa, no Porto, se na próxima semana continuarem valores por liquidar.

Em declarações à agência Lusa, o presidente do sindicato, Albano Ribeiro, disse terem sido liquidados na quarta-feira 600 euros relativos aos salários de dezembro da dezena e meia de trabalhadores afetos à obra em curso no Monumental Palace Hotel, no Porto, e 400 euros aos cerca de 80 funcionários (metalúrgicos) que se encontram nos estaleiros da Rechousa.

Já os cerca de 400 trabalhadores que estão há vários meses em casa em situação de inatividade “ainda não receberam” os salários de dezembro em atraso, o que o sindicato considera “uma situação discriminatória” que “não pode aceitar”.

Em atraso, para todos os trabalhadores, continua o pagamento do subsídio de Natal.

“Se esta situação não se alterar até meados da próxima semana vamos convidar os trabalhadores para uma concentração em frente aos escritórios da administração, no Porto, e paramos a obra do Hotel Monumental”, afirmou Albano Ribeiro à Lusa.

O sindicato acusa ainda a Soares da Costa de “discriminação” nas negociações para a saída de alguns funcionários do quadro: “Se a empresa chamou alguns quadros superiores e fez acordos com eles, porque é que não chama trabalhadores com 60 e mais anos que estão em inatividade em casa para também fazer um acordo com eles? Assim entravam diretamente para o fundo de desemprego”.

Contactada pela agência Lusa, fonte oficial da Soares da Costa assegurou que “não há nenhuma discriminação em relação aos trabalhadores que estão em atividade e em inatividade”, mas antes o “reconhecimento de uma diferença” relativamente aos funcionários “que estão efetivamente a trabalhar em obra, até porque é fundamental para a empresa que essas obras não se atrasem”.

“Na reunião que houve com a Comissão de Trabalhadores foi pedido pela administração que identificassem os casos de colaboradores em situações mais extremas (por exemplo, com familiares doentes e menores a cargo), para que fossem ultrapassadas mais rapidamente, e foi também dito que os trabalhadores que estão efetivamente a trabalhar em obra também poderiam entrar na primeira linha aquando da liquidação de remunerações em atraso”, afirmou.

Relativamente à situação da construtora, a fonte admitiu que a empresa está “a passar por uma situação extremamente difícil”, salientando que estão “a ser feitos esforços para fazer uma reestruturação cortando com despesas superficiais na área administrativa, como rendas e carros, e para que a empresa volte a ter negócio”.

“Em relação aos salários há a expectativa de que possa ser ultrapassada esta situação difícil nas próximas semanas e, dentro do pagamento parcial que tem vindo a ser feito, tem havido a preocupação de privilegiar os trabalhadores que recebem menos”, acrescentou.

Relativamente ao anunciado processo de despedimento coletivo de 500 trabalhadores da empresa, que deverá ficar concluído no final do primeiro trimestre deste ano, o Sindicato da Construção de Portugal considera que “ainda pode ser evitado” e diz ter solicitado, neste sentido, uma audiência ao primeiro-ministro, António Costa.

“Vamos levar propostas alternativas”, adiantou Albano Ribeiro, reiterando a necessidade de apostar em obras na área da ferrovia e da reabilitação urbana, e salientando que, no caso da Soares da Costa, para travar o despedimento coletivo “bastava avançar com a construção do novo Hospital de Todos os Santos [em Lisboa]”, cujo concurso recorda ter sido ganho por um consórcio que inclui a Soares da Costa, mas cuja construção “o anterior executivo cancelou”.

“Só isto bastaria para a Soares da Costa ter que recorrer a mais 600 trabalhadores, o que permitia evitar o despedimento coletivo”, assegurou.

Se, por outro lado, “a reabilitação urbana e outras obras não avançarem”, o dirigente sindical garante que, “a curto prazo, vai haver mais 5.000 trabalhadores [da construção] sem emprego, porque, por exemplo, as obras das barragens lançadas pelo anterior Governo acabam durante este ano”.

Com prejuízos acumulados superiores a 60 milhões de euros, a Soares da Costa é controlada em 66,7% pela GAM Holdings, detida pelo empresário angolano António Mosquito, que entrou no capital da construtora no final de 2013, sendo os restantes 33,3% da SDC – Investimentos (ex-Grupo Soares da Costa).