O banco Morgan Stanley vê pouca margem de manobra para uma restruturação da dívida portuguesa, alegando que tal afetaria o sistema financeiro nacional, afirmou esta segunda-feira a economista-chefe para a Europa, Elga Bartsch.

«Em termos de restruturação da dívida soberana, penso que já não haveriam muitos benefícios em Portugal porque, se se decidisse reduzir o valor [writedown] das obrigações do Governo, desencadear-se-ia quase imediatamente uma recapitalização do sistema bancário. Ou seja, o resultado não seria uma redução do valor da dívida do país, mas uma transferência de um lado para outro», disse hoje à agência Lusa durante um briefing para jornalistas em Londres.

França e Alemanha deveriam também opor-se porque «aprenderam com os erros cometidos na Grécia», vincou a economista alemã, enquanto o FMI não deverá aceitar um programa de assistência adicional para a sustentabilidade da dívida devido aos critérios usados por aquela instituição, que tem em conta apenas o valor em termos reais.

«Uma grande parte da dívida de Portugal - e ainda mais da Grécia - foi beneficiada pela extensão de maturidades e redução dos juros e isso não é considerado nessas análises», justificou.

Outra opção, acrescentou Elga Bartsch, seria a possibilidade de Portugal beneficiar de algum alívio por parte da troika, ao que acrescentou: «Mas tendo em conta que os empréstimos do Mecanismo Europeu de Estabilidade já são bastante baratos e as maturidades longas, não penso que seja possível fazer algo mais», argumentou.

A economista-chefe para a Europa do banco de investimento norte-americano considera possível que Portugal tenha uma «saída limpa» do Programa de Assistência Financeira, embora não esteja em tão boas condições como estava a Irlanda quando terminou o programa.

«A Irlanda tinha um sistema financeiro que detinha muito pouca dívida pública e também tinha fundos de pensões e de seguros com pouca dívida irlandesa. Noutras palavras, no sistema financeiro irlandês há bastante procura de dívida, que penso ter sido esgotada em Portugal porque os bancos portugueses possuem muitos títulos do tesouro [portugueses]», enfatizou.

O banco divulgou hoje uma revisão em alta das suas estimativas de crescimento económico na zona euro, para 0,9 por cento em 2014 e 1,2 por cento em 2015, e também em Portugal, para 1,4 por cento este ano e 1,6 por cento em 2015.

Porém, advertiu para os «ventos contrários» que a zona euro ainda enfrenta, nomeadamente o risco de deflação, uma moeda demasiado valorizada e inação por parte do Banco Central Europeu.