Os trabalhadores da RTP não se reveem no Projeto Estratégico elaborado pela nova administração, disse esta quinta-feira à Lusa Paulo Mendes, dirigente do Sindicato Nacional dos Trabalhadores das Telecomunicações e Audiovisual (SINTTAV).

Na quarta-feira, o Conselho Geral Independente (CGI) anunciou que «por decisão unânime», tomada na reunião de 26 de janeiro, o órgão tinha indigitado Gonçalo Reis (presidente), Nuno Artur Silva (vogal) e Cristina Vaz Tomé (vogal com pelouro financeiro) para o Conselho de Administração, tendo ainda divulgado o Projeto Estratégico elaborado por aqueles três responsáveis.

Segundo Paulo Mendes, «os trabalhadores da RTP não se reveem no Plano Estratégico», sublinhando que este documento «revela pouca preparação».

O sindicalista lembrou que o CGI rejeitou por duas vezes o Projeto Estratégico elaborado pela equipa de Alberto da Ponte, que vai renunciar aos cargos após a entrega do relatório e contas de 2014, o que é esperado que aconteça na sexta-feira.

Paulo Mendes criticou a «opção por uma programação de serviço público que basicamente vai fazer descer as receitas comerciais», numa altura em que «a RTP está subfinanciada», uma vez que desde 2014 deixou de contar com a indemnização compensatória, ficando apenas dependente da taxa para a contribuição do audiovisual (CAV) e das receitas publicitárias.

«Estávamos à espera de um documento que levasse à recuperação da empresa» e, perante este modelo, a RTP «vai rebentar com as finanças», uma vez que as receitas comerciais deixam de ser prioridade.

O Projeto «manda as receitas comerciais para as urtigas», sublinhou.

Apesar de reconhecer que o «tipo de programação [prevista no documento] faz sentido», a mesma não pode ser aplicada enquanto «não for resolvido o subfinanciamento da empresa».

«O dinheiro da CAV não dá para pagar o serviço que lhe é pedido», disse.

O dirigente sindical lamentou que o Projeto Estratégico coloque o foco «nos custos, nomeadamente através da redução dos trabalhadores», aludindo ao facto de o documento elaborado pela futura administração apontar que os esforços de contenção da RTP deverão concentrar-se na esfera de gastos em fornecimentos e serviços de terceiros e em custos com pessoal associados a funções administrativas de baixo valor acrescentado, tentando salvaguardar os montantes a disponibilizar para grelha/produção de conteúdos.

Lamentou que a referência aos trabalhadores tenha sido colocada «no plano da despesa com pessoal, ou seja, custos, em vez de ser encarada como um valor».

O dirigente sindical recordou que o SINTTAV se reuniu duas vezes com o Conselho Geral Independente (CGI), a quem transmitiu as suas preocupações, lamentando que as mesmas não tenham sido atendidas.

Em relação à política de recursos humanos do Projeto, o sindicalista apontou que «não há nada de novo», uma vez que a RTP «está com proibições de qualquer tipo de valorização remuneratória».

Paulo Mendes sublinhou ainda que, «supostamente, o CGI deveria aprovar um Conselho de Administração com base num Projeto Estratégico», mas «o que aconteceu é que primeiro nomeou a administração, depois trabalhou com eles o Projeto Estratégico e depois indigitou-os».

Trata-se de «uma questão formal que não foi pensada», apontou o sindicalista.

«Este [Projeto Estratégico] é um modelo do CGI e ele é responsabilizado por o que pode acontecer», disse.

O sindicalista questionou ainda a existência de um administrador com o pelouro dos conteúdos, apontando que tal não pode acontecer, uma vez que a administração não pode interferir com a parte editorial.

O CGI e o novo Conselho de Administração da RTP vão ser ouvidos no parlamento na próxima quarta-feira.