A "terra do fado e da saudade" tem recebido "notícias felizes" na era de António Costa, com o Politico a sublinhar o regresso do crescimento económico "robusto", depois de uma "década de recessão e estagnação". Porém, esta reputada publicação avisa que o primeiro-ministro começa a estar sob "pressão".

À medida que os dados positivos acontecem, o Governo está sob pressão dos sindicatos e da esquerda para acelerar o recuo das medidas de austeridade.

Costa também está a ter "alguma dificuldade em digerir o excesso de sucesso", constata o artigo do Politico, que recorre às palavras do líder da CGTP, para ilustrar a pressão de que o chefe de Governo está a ser alvo: "É hora de trocar a bicicleta por uma mota, para que possamos acelerar a recuperação". Muito tem o primeiro-ministro falado em "continuar a pedalar a bicicleta", já mota é veículo que não usa no seu discurso.

As palavras de Arménio Carlos denotam essa crescente falta de paciência para a velocidade impregnada por este Governo na devolução de rendimentos e melhoria das condições dos trabalhadores. Hoje mesmo o líder da CGTO alertou para o para o aumento da conflitualidade social no país, apelando ao Governo para "acelerar o passo" e alterar a legislação laboral "do tempo da troika".

Ou há alteração rápida da legislação laboral, que ainda é do tempo da troika, e também da política de direita e que está na origem destas situações que estamos aqui a verificar, ou vamos ter mais problemas no futuro".

Exemplos de pressão não faltam e o Politico olhou para o calendário: Função Pública cumpriu uma greve a 26 de maio e promete continuar a luta para que os salários subam e as 35 horas de trabalho semanais sejam mesmo para todos os trabalhadores. E há outras paralisações na agenda, como a dos professores, já a 21 de junho, e os juízes a ameaçar fazê-lo também.

Catarina Martins, do Bloco de Esquerda também já veio dizer que "o governo assumiu compromissos com os direitos dos trabalhadores que ainda não foram atendidos". "Chegou o momento de cumprir as promessas fundamentais de defender os trabalhadores".

Um jogo de cintura a que o Governo tem de atender, ainda para mais nesta altura do ano em que já está a negociar o Orçamento do Estado para 2018, com os chamados partidos da geringonça. PS, BE, PCP e PEV já conseguiram chegar a acordo sobre dois orçamentos, mas à medida que o tempo passa as exigências aumentam.

Embora o país e o Governo estejam em estado de graça - até o ministro alemão das Finanças elogiou Mário Centeno, chamando-o de "Ronaldo do Ecofin" - o menor descuido em termos orçamentais pode complicar o que já se alcançou até aqui e que o texto publicado hoje pelo Politico recorda: défice mais baixo da história da democracia, saída do Procedimento por Défice Excessivo, crescimento de 2,8% no primeiro trimestre, desemprego abaixo dos dois dígitos, turismo e exportações em alta. Até o Euro 2016 e o festival da Eurovisão Portugal ganhou e o Politico não esquece isso.

Apesar disto tudo, o equilíbrio orçamental antevê-se difícil, num país ainda "vulnerável a choques externos" e onde que a dívida está ainda em 130,4% do Produto Interno Bruto, a terceira maior da União Europeia, como sublinha a mesma publicação. 

O ministro das Finanças, Mário Centeno, ainda na semana passada prometeu que a sua equipa vai continuar a ser "extremamente responsável. como até agora". O Governo está, também, confiante de que, apesar de poder existir algum braço de ferro, os partidos à esquerda não vão provocar uma crise.

António Costa defende que o otimismo que se sente não faz mal a ninguém. Antes pelo contrário: "Infelizmente, o país passou por momentos tão maus que precisamos de muitas boas notícias, antes de recuperar a calma e a confiança".