A ex-diretora financeira do BES, Rita Barosa, deixou o banco em 2013, por apenas dois meses, para ser secretária de Estado da Administração Local e da Reforma Administrativa, a convite do ex-ministro Miguel Relvas. Na comissão de inquérito ao BES/GES, disse que não esperava o convite. Tal como, em 2014, já de regresso ao banco, nem sabia que constava na lista do ex-administrador financeiro, Amílcar Morais Pires, para integrar a administração que iria suceder a Ricardo Salgado, à qual o Banco de Portugal não deu luz verde. 

«Eu não conhecia pessoalmente o Dr. Miguel Revas, que foi quem me formulou o convite. Nunca sequer do ponto de vista social me tinha cruzado com ele. Não tinha experiência governativa. A minha primeira reação foi: porquê eu? A justificação que me foi dada era que a parte mais reorganizativa, autárquica, já foi feita e que tínhamos de avançar na parte mais financeira. E que estavam à procura de uma pessoa com um perfil mais financeiro»


O desafio proposto foi, primeiro, uma surpresa.  «Confesso que foi uma surpresa. Confesso que não foi alvo que, à primeira vista, não tenha ficado entusiasmada. Mas foi com orgulho que resolvi. Há um momento em que se tivermos possibilidade, devemos fazer o que podemos fazer. Era uma função com componente financeira», explicou aos deputados. 

Respondendo a Miguel Tiago (PCP), que voltou ao assunto, contou mais: «Perguntei de onde vinha a indicação. Disseram que o meu nome tinha sido sugerido por três ou quatro pessoas. Tinha estado à pouco tempo na ESAF [Espírito Santo Ativos Financeiros], se calhar foi por causa disso, mas não sei». 

Nesse momento, o deputado comunista puxou da ironia: «Como é que um ministro se lembra de uma financeira do maior banco português? Era engraçado perceber quem são essas três ou quatro pessoas...». Rita Barosa não contou. 

A ex-diretota do BES tinha adiantado, antes, que «Por ele, Ricardo Salgado, «teria ficado no banco», pelo meu trabalho. Fui eu que lhe comuniquei»

Acabou mesmo por integrar a equipa de Miguel Relvas, à época ministro adjunto e dos Assuntos Parlamentares, mas apenas durante dois meses. Relvas demitiu-se em abril de 2013, na sequência do caso sobre a sua licenciatura.

Depois disso, terminado o regime de requisição civil, Rita Barosa regressou às suas funções no BES, onde permaneceu até 30 de setembro de 2014, altura em que pediu a demissão. Assistiu ao colapso ocorrido em julho e constava da lista do ex-administrador financeiro (CFO) do banco, Amílcar Morais Pires, para a administração que iria suceder a Ricardo Salgado. 

«Tenho conhecimento da proposta de inclusão do meu nome para a lista de administração momentos antes da sua divulgação. Essa inclusão «não foi objeto de qualquer consulta prévia». «Confesso que vi aí reconhecimento profissional». «Era, de algum modo, algo elogioso»

«Acredito que era [um convite de] confiança pessoal, do ponto de vista profissional, do Dr. Ricardo Salgado, como [tinha com] outros quadros», salientou ainda.

Em resposta à deputada do CDS.PP, Cecília Meireles, confessou a forma como teve conhecimento do convite que ninguém lhe formulou diretamente e de viva voz. «Soube pelo departamento jurídico, porque me pediram o currículo. Um advogado liga-me a pedir o meu currículo. Eu perguntei-lhe qual era a razão e ele explicou-me».

Não chegou a exercer quaisquer funções na administração, porque o Banco de Portugal não aprovou Morais Pires para CEO. Vítor Bento foi quem tomou as rédeas, por pouco tempo, do banco atualmente liderado por Stock da Cunha.

No início da audição, Rita Barosa fez algumas revelações sobre as cartas de conforto passadas pelo BES à petrolífera PDVSA, que resultaram em elevadas paridades no BES, nas últimas contas que o banco apresentou antes do colapso.