O economista-chefe da gestora de fundos britânica Schroders, Keith Wade, considerou hoje que Portugal deve recorrer a um programa cautelar depois da saída da troika, para garantir a confiança dos investidores no futuro do país.

«Neste momento, parece-me que o melhor para Portugal é contar com uma linha de emergência», afirmou o responsável, num encontro com jornalistas em Lisboa, sublinhando que esta é a melhor maneira de tranquilizar os investidores acerca da continuidade do esforço de ajustamento económico do país após a saída da troika.

Keith Wade reconheceu que ficou «surpreendido com a decisão da Irlanda» de abdicar de um programa cautelar, dizendo que é possível, mas não recomendável, que Portugal siga o mesmo caminho.

«Ainda é cedo [para restaurar a confiança dos investidores]. São precisos mais dois ou três trimestres de crescimento económico, aliado à redução da dívida pública», opinou.

Segundo o economista, «Portugal está a beneficiar da sensação que o euro vai sobreviver e que o país vai permanecer no clube do euro».

Porém, realçou, «Portugal já teve a sua dose de austeridade», pelo que, agora, «falta o crescimento».

O responsável considerou que «se a situação de consolidação orçamental continuar», o país poderá deixar para trás a ajuda internacional, caso contrário, «pode haver um hair cut [corte] da dívida portuguesa».

Questionado sobre a perceção existente na City de Londres, o coração financeiro da Europa, acerca dos esforços de Portugal para equilibrar as suas finanças públicas, Keith Wade revelou que a opinião dominante é que «o Governo português está a fazer o caminho certo, com um grande esforço para reduzir os gastos públicos».

Ainda assim, vincou, tal só tem sido possível através de uma considerável subida dos impostos.

«A austeridade tem limites. Portugal e Espanha reduziram muito os custos laborais. Já fizeram a sua parte. Agora, chega de austeridade, é hora de ver surgir a competitividade» das economias ibéricas, sublinhou Keith Wade.

Já sobre a sua perspetiva acerca da economia global, o especialista considerou que o mundo «está a sair da crise», acrescentando que os Estados Unidos (EUA) estão na liderança deste movimento.

«Os EUA estão um ano ou dois à frente da Europa, mas a Europa vai chegar lá. Dentro de três a cinco anos a economia mundial estará melhor, mas não vai voltar ao padrão pré-crise», afirmou.

Isto, porque o apetite pelo crédito, quer por parte das famílias, quer pelas empresas, vai esmorecer.

«As economias desenvolvidas vão importar menos produtos, o que vai causar pressão sobre os emergentes», disse.

E apontou para o que espera que aconteça em Portugal, para ilustrar esta sua convicção: «Para estimular o crescimento, Portugal vai apostar na atração de investimento, potenciando a produção local e reduzindo as necessidades de importações».