Um investigador na área da Genética Humana alertou hoje, em Faro, para os riscos para a saúde pública associados à extração de hidrocarbonetos, atividade que pode ter impactos negativos na saúde e na qualidade do ar e da água.

"Há uma quantidade crescente de evidências científicas que apontam para significativos riscos e perigos para a saúde pública" associados àquela atividade, sobretudo se forem usados métodos não convencionais, como a fraturação hidráulica, alertou João Lavinha, do Instituto Ricardo Jorge, durante a conferência “Impactos Económicos, Sociais e Ambientais da Exploração de Hidrocarbonetos no Algarve do Séc. XXI”.

Segundo o investigador, a fraturação hidráulica, usada para extrair petróleo e gás natural, envolve muita água, existindo o risco de contaminação dos recursos hídricos, devido à injeção de químicos no subsolo, e de poluição do ar, devido à libertação de gases como o metano, o principal componente do gás natural e que tem "um efeito de estufa dezenas de vezes superior ao dióxido de carbono".

João Lavinha refere que os químicos usados nos líquidos durante as perfurações "não são conhecidos", acrescentando que cada perfuração pode requerer "na ordem das centenas ou milhares de metros cúbicos de água", que é bombeada, em conjunto com compostos químicos, a elevadas pressões para o subsolo, provocando fraturas para libertar os hidrocarbonetos.

Entre os efeitos previsíveis na saúde resultantes da exposição a esta atividade estão a disrupção endócrina (alterações no sistema endócrino), a toxicidade aguda, a imunotoxicidade (sistema imunitário) e a neurotoxicidade (cérebro e sistema nervoso).

Além destes riscos, o investigador lembrou que o uso daquela técnica, também conhecida como fracking, pode precipitar a ocorrência de sismos, o que já aconteceu em algumas zonas dos Estados Unidos da América - nomeadamente em locais onde nunca tinham sido sentidos -, sublinhando que o Algarve é das zonas com maior risco sísmico do país.

João Lavinha apresentou os resultados de dois estudos, realizados nos Estados Unidos, em zonas onde se faz extração de gás natural, e a proximidade das casas aos poços de gás natural, bem como o uso de água proveniente de outros poços para consumo humano, revelaram que as pessoas manifestavam sintomas de diversa índole, cardíacos, neurológicos ou no aparelho respiratório, entre outros.

Um dos estudos, realizado no Estado do Colorado entre 1996 e 2009 e envolvendo quase 125.000 bebés, demonstrou a existência de anomalias congénitas, devido à exposição a agentes poluentes durante a gravidez, sendo que os defeitos cardíacos e no tubo neuronal eram "maiores quanto maior era o número de poços e a sua proximidade".

Durante a conferência, Luísa Schmidt, do Instituto de Ciências Sociais, classificou a intenção de extração de hidrocarbonetos no Algarve como um "atentado" às áreas protegidas, à atividade turística e à pesca artesanal, entre outras atividades, uma vez que se trata de uma atividade "extremamente intrusiva" e que não é conciliável com a conservação dos valores ambientais.

A socióloga lembrou que a operação afeta três áreas protegidas - Reserva Natural do Sapal de Castro Marim e Parques Naturais da Ria Formosa e do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina -, por extração direta ou atravessamento.

Luísa Schmidt criticou o facto de Portugal estar a agir em "contraciclo", num momento em que a oferta de petróleo é maior do que a procura e em que é desaconselhado o investimento em energias fósseis, lamentando ainda o facto de as contrapartidas para o Estado português serem baixas.