«O Lehman faliu. O BES não faliu. O que vos estou a dizer é revelado nas contas da KPMG». «O BES foi forçado a desaparecer». Ricardo Salgado não deixa para as entrelinhas a culpa do colapso do banco: entende que foi do Banco de Portugal, acusando-o de querer «desresponsabilizar-se». A responsabilidade sobre a crise no grupo, assumiu-a sempre no plural, não sozinho. Perante os deputados que compõem a comissão de inquérito ao BES, garantiu que tinha uma estratégia para dar a volta. A responsabilidade pelo desfecho, essa, atirou-a para Carlos Costa, pelas diretrizes que ganharam forma de «ultimato», «impossível» de acatar:

«No final do BES, Banco de Portugal dá 48 horas para um aumento de capital? Eu acho - porventura estou a exagerar e os meus juristas podem dar-me nas orelhas - mas acho que essa carta do Banco de Portugal é uma forma de se desresponsabilizar. 48 horas para fazer um aumento de capital não existe. Só se fosse um milagre. O que parece é que isto estava tudo mais ou menos orientado» para a resolução


O Banco de Portugal enviou cerca de 30 cartas em meio ano a Salgado, «uma média de três cartas por dia», sublinhou. O banqueiro garantiu perante os deputados que «nunca mentiu» nessa troca de correspondência e que deu as respostas que considerava poder e dever dar. Citou uma delas, em que se prontifica «claramente» a encontrar solução e que não ia «dificultar» nada. Salgado assegura que nunca houve eferência e pedido explícitos para que abandonasse o barco.

«Mais claro que isto não há E isto foi a 3 de março. Se Banco de Portugal tivesse querido que eu saísse, era muito fácil, muito fácil». «Ao primeiro sinal, se considerarem que eu não tinha idoneidade, eu seria o primeiro a sair. Nunca tive esse sinal».

«O senhor governador nunca me disse taxativamente que deveria sair da administração do BES. O que me disse foi que a família devia sair. A família toda». 

«O que aconteceu, foi no dia, já depois do aumento de capital, salvo erro dia 19 de julho, chamou lá o conselho de administração para manifestar essa intenção.  Sempre acolhi as decisões do senhor governador. Nunca por nunca, se o senhor governador dissesse para sair eu saía na hora, mas é que era na hora»


Salgado afirmou que teve noção da «persuasão moral» só agora, apenas pelo que foi dado conta na comissão de inquérito pelos elementos do Banco de Portugal. 

«Ouvi surpreendido as declarações do senhor governador do BdP dizendo que tinha tido um braço-de-ferro comigo. Nunca o senhor governador me disse que me retirava a idoneidade». «Bastaria [ele] fazer um sinal para [eu] pedir a demissão».


Argumentou, ainda, que Carlos Costa «não achou mal» que ele próprio liderasse o conselho estratégico que ia ser criado. «Não me disse para eu não eu ser presidente do Conselho Estratégico, Mas tudo isso caiu, Nem o conselho, nem coisa nenhuma foi concretizado».

«Dá a ideia que o Banco de Portugal considerava que se substituísse a gestão do BES resolvia o assunto». «Mas o problema não era resolvido assim, mas atacando as dificuldades da área não financeira do Grupo através de um financiamento intercalar».


E, lembrou, ele próprio já se tinha disponibilizado «para ser substituído na gestão pelo dr. Morais Pires».  Daí que o banqueiro não perceba o percurso escolhido pelo BdP, ao não dar tempo, e querer uma sucessão precipitada. 

Convictos que «o grupo da área financeira poderia ser viabilizado e sustentado», «apresentámos BdP caminhos para lá chegar. Recebemos uma carta no próprio dia 3 [sendo que era] completamente inviável até ao fim do mês de dezembro» atender a todas as exigências do BdP. «O programa estava em marcha mas era preciso ter tempo».

As questões de idoneidade vinham sendo levantadas sobre «alguns aspetos pontuais», «de alguns anos atrás», admitiu. Mas contestou que alguma vez tivesse sido posta em causa: «Eu tomei iniciativa de declarar ao Banco de Portugal e ao Ministério Público» a investigação do caso Monte Branco. «Fui classificado como testemunho dessa situação, em janeiro ou fevereiro de 2013, e não ouvi falar do assunto até outubro ou novembro».

«Resolução foi um erro»

Perto do final da primeira ronda de perguntas, Ricardo Salgado não teve dúvidas em classificar a medida de resolução adotada pelo Banco de Portugal: «Foi um erro». O valor do Banco, 6 mil milhões de euros, desde julho, «foi completamente dizimado». 

O ex-dono do BES espera que não haja ainda piores consequências, caso o Novo Banco venha a ser vendido sobre valor inferior, o que iria, «certamente, provocar uma crise maior ao nível do emprego e das empresas».

Acabou por classificar de «ultimato» o que o Banco de Portugal fez consigo. Frisou por diversas vezes que não era não possível seguir as determinações do BdP, mas era impossível segui-las com aqueles prazos tão curtos.

«Três vezes, por escrito, o BdP foi avisado o risco sistémico. A última carta é a carta de 31 de março. Estão lá previstas todas as circunstâncias que poderiam acontecer, pela impossibilidade de concretizar o plano, inclusivamente está lá dito que é possível que a garantia do BESA caia se o GES sair do banco»


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