A ex-ministra das Finanças Manuela Ferreira Leite diz que o corte de 15% nas subvenções vitalícias dos políticos, que o Governo pretende incluir no Orçamento do Estado para o ano que vem é «um aumento de impostos encapotado».

Falando nas jornadas da Associação Empresarial de Portugal, a economista diz que Portugal está a andar em sentido contrário e que não pode haver desenvolvimento com uma carga fiscal tão elevada.

«Em questões essenciais parece-me que estamos a andar em sentido contrário do que era aconselhável», disse, acrescentando que «não há crescimento económico com elevadas cargas fiscais, mas a prática seguida tem sido até a de mascarar os impostos dando-lhe outro nome a determinadas contribuições, cujos efeitos na economia são exatamente o dos impostos».

A ex-líder do PSD recusa «a ideia de que estamos a caminho de regressar ao nosso modelo económico baseado no baixo custo da mão-de-obra e recuso esta ideia e esta análise porque considero que seria uma fatalidade».

Admitindo não perceber «a estratégia e muito menos o que se espera encontrar no fim de ela ser aplicada», Ferreira Leite lembrou que «o êxito das mudanças necessárias num processo desta natureza assenta na compreensão da sua necessidade, na estratégia para a sua concretização, na clareza dos meios utilizados, na definição inequívoca dos seus objetivos e na perceção dos seus resultados. Só assim serão aceites pelos cidadãos que se sentirão envolvidos e empolgados para o processo de mudança».

«Todos os processos de desenvolvimento contam com o protagonismo ativo de uma classe média» que, no seu entender e no caso de Portugal «tem estado em regressão acelerada em consequência de políticas que a enfraquecem, o que não augura nada de bom».

«É muito nítida a consciência de que qualquer que seja o processo de desenvolvimento, este nunca deve perder de vista as pessoas porque são estas as destinatárias de toda e qualquer política de desenvolvimento».

Baseando-se a estratégia de desenvolvimento na qualificação dos recursos humanos, Ferreira Leite disse não conseguir «compatibilizar esta exigência com a emigração de jovens, na maioria das vezes qualificados», e que «não se espera que estejam com intenção de regressar ao país».

«Verifica-se que uma sociedade desigual com índices de pobreza elevados e com desigualdades acentuadas de distribuição do rendimento e da riqueza é uma sociedade cuja estrutura social gera subdesenvolvimento», alertou.