O ex-presidente da Comissão Europeia defendeu esta quinta-feira ser "mais provável a saída da Grécia do euro atualmente" do que em 2012, dado que "por razões políticas próprias, Atenas ainda não conseguiu recuperar a confiança dos mercados".

"É uma situação trágica (...) uma má política pode gerar catástrofes. O governo de Alexis Tsipras "não soube aproveitar a legitimidade" para negociar com a zona euro, preferindo falar em restruturação da dívida


Antes, "a Grécia mentiu aos parceiros e à Comissão Europeia, o povo grego deu instruções ao banco central e ao tribunal de contas para manipular os dados que apresentava" às instituições europeias. "A Grécia não cumpriu as regras e o povo grego está a pagar um enorme preço por isso", sublinhou.

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"É um teste curioso ver se um partido, o Syriza, contra o sistema é capaz, ou não, de governar no sistema", disse, acrescentando: "eu gostaria que fosse (...) pois seria mais uma prova da plasticidade do projeto europeu".

Ainda na quarta-feira, o ministro das Finanças Wolfgang Schäuble também concordou que a realidade grega, agora, é diferente. "Hoje refletiria bastante antes de repetir" que Atenas conseguiria evitar a bancarrota.

O Grupo de Bruxelas, que reúne as instituições antes denominadas de ‘troika’ e os responsáveis gregos, retomou esta quarta-feira, e até sábado, as  negociações presenciais em Bruxelas sobre as reformas a adotar por Atenas. Desde finais da semana passada que não havia trabalhos presenciais deste grupo que tenta chegar a entendimento sobre as medidas que o Governo helénico deve executar em troca de ajuda financeira.  

A Comissão Europeia advertiu há dois dias que   o tempo está a esgotar-se. O ministro grego das Finanças, Yanis Varoufakis, disse ontem que acredita que haja acordo   dentro de uma semana.   

Desde fevereiro que o Governo liderado por Alexis Tsipras negoceia com a Comissão Europeia, FMI e BCE reformas a executar no país para fechar a última avaliação do programa de resgate e, assim, serem libertados, pelo menos, parte da última parcela do atual programa de resgate, de 7,2 mil milhões de euros.  

A chegada de dinheiro a Atenas assume-se como cada vez mais fundamental face à escassez dos cofres públicos, como assumiu o ministro das Finanças grego, Yanis Varoufakis. “A liquidez é um assunto terrivelmente urgente”, admitiu. 

Em junho, a Grécia tem de fazer face ao pagamento de 1.500 milhões de euros ao FMI, a começar por 300 milhões de euros já no dia 05. Ontem mesmo, a presidente do FMI, Christine Lagarde, advertiu que a sua instituição    não vai permitir que a Grécia falhe os pagamentos.  

UE teve "grande resiliência"


O ex-primeiro-ministro português (2002-2004) elogiou a construção europeia e a capacidade de ultrapassar situações de crise. "Esta crise expôs vulnerabilidades, mas também demonstrou que a UE tem grande resiliência, a capacidade de resistir e ultrapassar situações graves (...) uma recuperação mais segura e sustentável", sublinhou.

"Há atualmente na Europa forças suficientes para garantir a continuação e aprofundamento do projeto europeu (...) apesar das ameaças como o Grexit (saída da Grécia), o Briexit (saída do Reino Unido), ou a Rússia, ou o terrorismo", defendeu.

Sobre a Ucrânia, Durão Barroso considerou que a UE "tomou a posição correta", ao decidir aplicar sanções à Rússia, uma vez que não ia optar por uma solução militar, tal como os Estados Unidos.

A UE "manteve uma posição de princípio, mas era mais fácil para alguns países europeus, pelos interesses que os ligam à Rússia, deixarem a Ucrânia entregue à sua sorte", disse.

Apesar dos tratados assinados entre Moscovo e Kiev, nos quais é reconhecida a integridade territorial da Ucrânia, a Rússia anexou a Crimeia, que justificou, "de forma inadmissível", com argumentos étnicos e linguísticos.

"Na Ucrânia está a maior presença de tropas russas na Europa desde a Segunda Guerra Mundial", sublinhou o ex-presidente da Comissão Europeia (2004-2014).

Em relação à situação dos migrantes no Mediterrâneo, Durão Barroso defendeu que a UE deve receber "de forma equilibrada" quem chega às suas fronteiras, criando políticas que permitam uma integração plena.

"A Europa tem falta de gente (...), mas deve acolher para formar" e integrar os refugiados, disse, numa conferência subordinada ao tema "O papel da União Europeia na Paisagem Global", que decorreu no âmbito das Conferências do Estoril, que terminam na sexta-feira.

Durão Barroso afirmou serem necessárias "medidas para lutar contra as redes de traficantes", além de medidas "de segurança e policiais" nas fronteiras externas da UE, bem como uma partilha de recursos e "uma capacidade coletiva dos Estados-membros para agir" e responder a situação no mar Mediterrâneo.