Domingo houve reunião de obrigacionistas do Sporting. Os detentores de obrigações da SAD aceitaram que o reembolso dos 30 milhões de euros que venciam a 25 de maio só sejam pagos a 26 de novembro.

Este é apenas um dos empréstimos feitos pelo clube. De resto, uma forma comum dos clubes se financiarem, ultimamente, mas para quem compra é importante que perceba os riscos associados.

O presidente da Dif Broker, Pedro Lino, esteve no espaço da Economia 24, do "Diário da Manhã" da TVI, para falar do tema.

O que significa este adiamento do reembolso dos aos obrigacionistas?

O adiamento de um empréstimo obrigacionista nunca é um bom sinal para qualquer empresa porque significa que, no curto prazo, a empresa não tem dinheiro ou não tem capacidade de levantar dinheiro para pagar aos obrigacionistas. Por isso, é que o Sporting propôs adiar o pagamento,  para ganhar cerca de seis meses e conseguir financiar-se, não em 30 mas até 60 milhões de euros, a autorização que têm.

Neste momento a SAD está autorizada a fazer uma emissão de 15 milhões de euros, que devia arrancar até 28 de maio, mas nunca será suficiente para o que o clube precisa?

Não. Os 15 milhões de que o presidente do clube falou, dizendo que até aí correr bem e achava que até final do mês estavam colocados, derivam de necessidades de financiamento do clube. Nomeadamente existem empréstimos que se vencem, à banca, de cerca de 12 milhões de euros em junho. A que acrescem mais 26 milhões em factoring [instrumento que tem por base a cedência de créditos a receber sobre clientes, permitindo às empresas financiar esses créditos de forma a melhorar a sua gestão de tesouraria]. Ou seja, as necessidades ao longo do ano representam à volta de 68 milhões de euros por isso este dinheiro que está a ser angariado vai ser gasto rapidamente em dívidas que o clube tem.

É mais arriscado deter obrigações de clubes de futebol do que de empresas?

Na minha opinião é bastante mais arriscado porque um clube não tem uma previsão de resultados nos próximos três a quatro anos, ao contrário, por exemplo, das empresas de energia, comunicações e até da banca, onde podemos prever qual vai ser a evolução económica e daí perceber se vão existir dividendos, ou não. No caso dos clubes, historicamente, nunca pagaram um dividendo.

E estão falidos, não é?

É um pouco forte essa expressão, mas sim. Se olharmos para o balanço dos clubes não estão em boa situação técnica. Além disso, nas emissões obrigacionistas quer o Benfica, no ano passado, quer do Porto, que está a decorrer, existem entre 16 a 18 páginas nos prospetos, que ninguém lê, a alertar para riscos. Os investidores têm de perceber que quando compram obrigações destes clubes vem associados com risco muito elevado.

Os juros também são muito elevados, cerca de 6%..?

Sim essa é a promessa. Face aos juros de um depósito a prazo é muito tentador, mas com riscos associados. Os investidores têm que ler as páginas dos riscos associados para perceberem que estão a correr um risco de adiamento, como ocorreu agora – se precisassem do dinheiro no fim de maio não o vão ter, só no final de novembro, se tiverem.

Podemos ter outro grupo de lesados?

Sim. Geralmente é um investimento mais emocional, mas as pessoas depois não se podem queixar, quando acontece alguma coisa, porque os riscos estão lá.

Pode nunca acontecer o reembolso?

Pode. Existe uma métrica interessante que é o ativo corrente menos o passivo corrente: que os clubes têm de ativos para pagarem as suas dívidas inferiores a um ano. No caso do Sporting esse valor são 100 milhões negativos. No caso do Benfica é negativo em 50 milhões e do porto negativo em 150 milhões

Ou seja não há dinheiro?

Não tem dinheiro para pagar as dívidas até um ano. É necessário que, quando os investidores resolvem comprar estas obrigações, tenham a consciência de que existe risco e que estes clubes vivem muita de a confiança [uma crise, como a do Sporting, afeta a confiança e leva patrocinadores, por exemplo, a deixarem de o ser].

Os reguladores devem estar mais atentos?

Acho que devia existir limites à emissão destas obrigações. O que temos vindo a assistir, nos últimos cinco a sete anos, é que os clubes se financiam mais juntos dos seus associados e investidores e menos através da banca. O que significa que se, um dia acontecer alguma coisa, vão ser os obrigacionistas a pagar e menos a banca.