O Banco Espírito Santo emprestou 5,7 mil milhões de euros ao BESA que, por sua vez, pediu ao Estado angolano que desse uma garantia para cobrir esses créditos. Ora, ex-presidente do BES Angola admitiu esta terça-feira, na comissão de inquérito ao BES/GES que sem essa garantia estatal o banco teria ido à falência. 

As autoridades angolanas aceitaram dar a garantia porque «podia haver outro tipo de implicações para o sistema financeiro» angolano. «Face às dificuldades que tínhamos, o banco podia soçobrar»


A dita garantia foi passada em dezembro de 2013, mas foi retirada em agosto de 2014, logo a seguir ao colapso do BES. O banco perdeu grande parte do dinheiro que emprestou. Até agora, ninguém disse onde foram parar cerca de 3,5 mil milhões de euros. Sem esse dinheiro, na sequência da resolução decretada pelo Banco de Portugal, foi preciso injetar muito mais do que seria suposto no Novo Banco.

Só que o problema é anterior. O BES concedeu créditos daquela envergadura a um banco que contabilizava graus de incumprimento «elevados», na «generalidade» dos setores a quem concedia, depois, empréstimos, admitiu o próprio Rui Guerra. Como reconheceu, também, que nem todos os beneficiários foram identificados

«Precisávamos de determinado tipo de apoio», reconheceu. Daí o recurso ao Estado angolano para servir de colateral. Quando a garantia é passada, no valor de 5,7 mil milhões de euros, já existiam 2,3 mil milhões que estavam em incumprimento. 

O «Governo angolano sabia disso?», perguntou, depois, a deputada do Bloco de Esquerda Mariana Mortágua. «Certo», respondeu Rui Guerra. Mas estar em incumprimento «não quer dizer que não pudéssemos sentar-nos com o cliente» para inverter essa situação, defendeu.

Antes, já tinha negado ter contactado diretamente o presidente angolano, José Eduardo dos Santos: «Podia ter acontecido, mas não aconteceu. Alguém pediu». 

«Quem?», quis saber o deputado do PCP Miguel Tiago. Primeiro, hesitou, mas depois respondeu: «Foi o BESA, certamente». O deputado constatou que, «então, não está incorreto dizer que foi o CEO do BESA a pedir ao presidente angolano».

Rui Guerra  argumentou que, na própria Europa, «também houve determinado tipo de apoios, mais ou menos explícitos» do Estado a bancos. Vê isso com naturalidade, desde que haja fundamento: «Havia graus de dificuldade, devidamente explicitados. Explicitação essa que as pessoas perceberam que podia haver outro tipo de implicações para o sistema financeiro, caso não encontrássemos solução boa para todas as partes».

O «apoio» que Rui Guerra sentia dos acionistas do BESA foi sendo afetado pela «turbulência do BES», nas últimas semanas do banco em Portugal.

«Em julho, a situação inverteu-se de uma forma generalizada. Da parte do BNA, houve um pedido de aumento de capital».  «Houve dias muito, muito difíceis. Depósitos a sair, problemas diários de liquidez… Essa última semana foi muito complicada lá, em Angola», admitiu.