O ex-presidente do BES não acredita que tenha sido a ocultação de dívida na ESI a causar o colapso do GES e do banco, justificando que esta foi conhecida antes de um aumento de capital que foi um «absoluto sucesso».

Ricardo Salgado defende, então, que foram a «volatilidade das ações e a fuga de depósitos que ditaram o fim do BES». Ou seja, que a culpa foi do Banco de Portugal.
 

«A indecisão do Banco de Portugal na questão da governance causou desconfiança no mercado».


O banqueiro isenta-se de responsabilidades no que à sua sucessão diz respeito, já que a intervenção do Banco de Portugal nesse aspeto - exigindo a separação entre a área financeira e a não-financeira do GES - foi feita após um aumento de capital com «o melhor resultado de sempre» no BES.

«Não houve nexo causal entre o problema da ESI e a quebra de confiança no BES, a partir de 20 de junho de 2014. Se a ESI tivesse causado a destruição do BES, o aumento de capital de maio e junho jamais teria sido feito com absoluto sucesso». 


Salgado sublinhou que, a 10 e 11 de julho de 2014, «em apenas dois dias», «o BES registou saídas de caixa de dois mil milhões de euros» e que, nessa altura, o Banco de Portugal estava «ciente» da necessidade de injetar capital no banco.

Aliás, Ricardo Salgado continua a defender que, se o grupo tivesse tido «tempo», ainda seria «viável», através de um aumento de capital na Rioforte, que «já estava em marcha», e de um apoio institucional, que «tinha permito estabilizar o passivo a médio prazo e que os ativos fossem vendidos com tranquilidade». Com a medida de resolução, apontou, «inviabilizou-se o BES».

O banqueiro sublinhou ainda que «o dinheiro não desapareceu», tendo apontando que o Novo Banco «beneficiou» dos ativos do BES.
 

«O dinheiro não foi para os bolsos dos acionistas, entre os quais se encontrava a família Espírito Santo. Mas o dinheiro não desapareceu. Os ativos transitaram para o Novo Banco, por decisão do regulador (…) O relatório da KPMG sobre a ESI demonstra que não houve qualquer desvio de fundos».


Sobre as contas alteradas da ESI e a ocultação de cerca de 1,3 mil milhões de euros, o ex-presidente do BES voltou a repetir as palavras que já tinha afirmado na primeira audição, mesmo apesar de, entretanto, ter sido desmentido pelo contabilista do GES, Francisco Machado da Cruz, que o acusou de ter dado ordem para essa ocultação.
 

«Não dei instruções para a ocultação da dívida. Sabíamos que não tínhamos as contas consolidadas, essa era uma fragilidade».


Ricardo Salgado acusou Machado da Cruz de já ter dado «cinco versões» da história, mas não admitiu, para já, processá-lo por o acusar de ter tido a ideia da manipulação das contas.

Desafiado pelo deputado do PSD, Carlos Abreu Amorim, a pedir desculpa aos clientes e acionistas do BES pelas suas responsabilidades no colapso do banco, o banqueiro rejeitou e citou Fernando Pessoa, ainda que mal.

«Pedir desculpa é pior do que não ter razão [a frase de Álvaro de Campos é «não dar desculpas é melhor que ter razão»]. Estou aqui a defender a minha razão. A melhor forma de defender os interesses dos clientes e acionistas é provar que tenho razão. Espero vir a obtê-la quando vier a ser julgado nos tribunais». 


«Se a família soubesse...»

O ex-presidente do BES sublinhou ainda que a família Espírito Santo investiu quase 100 milhões de euros em aumentos de capital em empresas do GES, em 2011 e já em 2014, provando que ninguém sabia dos problemas nem previa o colapso.
 

«Fizemos um aumento de capital da ES Control, em 2011, no qual eu e a minha família investimos 70 milhões de euros. Se soubéssemos que havia um problema, não o tínhamos feito senão estávamos a enganar-nos a nós próprios».

«Há ainda investimentos de 25 milhões no aumento de capital da Rioforte. Ninguém na família sabia o que se passava, senão não tínhamos investido os nossos recursos nesses dois aumentos de capital».