A Deloitte quer ouvir a equipa do BES liderada por Ricardo Salgado no âmbito da auditoria forense em curso, na qual estão envolvidos o Banco de Portugal (BdP) e a CMVM, revelou esta segunda-feira à Lusa o ex-presidente do banco.

Auditoria forense ao BES ainda não está concluída

Ricardo Salgado avançou em comunicado que, na passada sexta-feira, no contexto do processo de auditoria em curso que está a ser conduzido pelo BdP e Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) ao Banco Espírito Santo (BES), com a colaboração da Deloitte, «foi questionada por esta última a disponibilidade dos membros da Comissão Executiva para uma reunião com elementos da equipa da auditora».

Segundo o antigo líder do BES, o objetivo desta reunião «será clarificar alguma informação recolhida no âmbito da referida auditoria, e obter informação adicional que entendam relevante transmitir face aos objetivos da auditoria em curso».

Sem revelar se está, ou não, disponível para participar nessa reunião, Salgado especificou que foi avisado pela Deloitte de que as informações que forem aí recolhidas podem «vir a ser utilizadas como meio de prova dos factos em análise».

O ex-presidente do BES adiantou ainda que a auditora especificou que quer agendar as reuniões com os antigos membros da equipa de gestão do banco até ao final desta semana.

«Face ao exposto, não deixa de ser, no mínimo, estranho e surpreendente que, passadas 24 horas sobre esta solicitação de disponibilidade, um comentador televisivo tenha afirmado publicamente já existirem as conclusões da auditoria e uma data para serem conhecidas - precisamente a próxima sexta-feira, dia 14 de novembro», escreveu Salgado à Lusa.

E acrescentou: «Mais se estranha que, 48 horas depois de ter recebido a referida solicitação de disponibilidade para prestar esclarecimentos numa auditoria que estaria em curso, umas pretensas conclusões da mesma tenham sido divulgadas num canal de televisão».

Ricardo Salgado refere-se especificamente ao comentador da SIC Luís Marques Mendes que, no sábado, revelou que estava para breve a apresentação dos resultados da auditoria forense feita ao BES, apontando para que tal aconteça na próxima sexta-feira.

E aponta para a notícia avançada no domingo pela SIC, segundo a qual Salgado e a sua equipa retiraram várias centenas de milhões de euros do BES através de quatro veículos offshore nas últimas semanas antes de abandonarem a instituição.

Contudo, a auditoria forense referida pela SIC foi conduzida pela PricewaterhouseCoopers (PwC) a pedido do BdP, e sua intenção era verificar se foram cumpridas as medidas que o supervisor ordenou para separar o BES e as restantes empresas do universo Espírito Santo, depois de terem sido detetadas «irregularidades graves» no seio das contas das 'holdings' de topo do Grupo Espírito Santo.

Já a auditoria forense em que a Deloitte participa em conjunto com os especialistas do BdP e da CMVM arrancou no final de julho, quando já estava ativa a auditoria da PwC, e visa 'passar a pente fino' todas as matérias relacionadas com a gestão de carteiras, com a gestão de patrimónios, com as contas e com a comercialização de instrumentos financeiros no BES.

À Lusa, Salgado considerou que as alegadas conclusões da auditoria forense noticiadas pela SIC permitiram «as mais variadas análises e extrapolações, de uma forma gravemente difamatória» relativamente a si próprio e «a outros ex-administradores do BES».

E acrescentou: «Perante esta factualidade, e sem ter existido qualquer contraditório por parte do dr. Ricardo Salgado (e, presume-se, de outros visados) parece evidente que estamos, uma vez mais, perante uma desleal e inusitada tentativa de se fazer um julgamento público e mediático».

Isto, «com motivações pré-determinadas e pré-anunciadas, com vista ao condicionamento da opinião pública e, eventualmente, da própria comissão parlamentar de inquérito», reforçou.

O responsável concluiu que «tudo isto é dificilmente compatível com o apuramento da verdade e com os princípios que devem reger um Estado de Direito democrático».

E, tal como tinha feito a 04 de agosto, no dia seguinte à intervenção do BdP no BES, Salgado volta a dizer que aguarda pelas conclusões do relatório da auditoria forense às contas do banco, relativas ao primeiro semestre de 2014, reservando-se o direito de se pronunciar sobre as mesmas.

Realçando que está convocado para ser ouvido na comissão parlamentar de inquérito, cujas audições arrancam a 17 de novembro, Salgado garante que, «até ao momento», não lhe foi dado a conhecer «qualquer relatório da aludida auditoria forense, muito menos conclusões, pois, aparentemente, ainda estariam em curso diligências no âmbito da mesma».

A 03 de agosto, o BdP tomou o controlo do BES, após o banco ter apresentado prejuízos semestrais de 3,6 mil milhões de euros, e anunciou a separação da instituição em duas entidades: o chamado banco mau, um veículo que mantém o nome BES, e o Novo Banco.