O antigo presidente executivo do Banco Espírito Santo foi esta quinta-feira constituído arguido no âmbito do processo Monte Branco. O processo que está a ser investigado desde Junho de 2011 tinha por base uma rede suíça que proporcionava a evasão fiscal e o branqueamento de capitais portugueses, numa fraude que se calcula atingir mil milhões de euros. Na lista de clientes da gestora de fortunas Akyoa surgiram várias offshores ligadas a gestores do BES, entre os quais Ricardo Salgado.

Ricardo Salgado já tinha sido ouvido como testemunha no Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP) a 19 de dezembro de 2012.Na época os investigadores queriam explicações sobre a origem de um conjunto de movimentos financeiros. Na época, Salgado garantiu a inocência afirmando «nunca fugi aos impostos, nem sou suspeito disso ou de qualquer outra coisa».

Ainda em 2012, o banqueiro teve que explicar ao Banco de Portugal e ao DCIAP o porquê de transferências de 14 milhões de euros do construtor José Guilherme para a Sociedade Savoices (sociedade offshore com sede num paraíso fiscal do Panamá), de que Ricardo Salgado era detentor. A Savoices é uma sociedade offshore com sede num paraíso fiscal do Panamá.

Salgado justificou as transferências com uma oferta do construtor José Guilherme, como forma de agradecimento pelos conselhos do banqueiro.

Antes de ser ouvido pelo Ministério Público, Ricardo Salgado tinha aproveitado o terceiro Regime Excecional de Regularização Tributária que decorria até ao final de dezembro de 2012, para pôr em ordem a sua situação com o Fisco.

No âmbito do Monte Branco, o Ministério Público investigou doze transferências de 27,3 milhões efetuadas entre julho de 2009 e julho de 2011, já depois de ter começado a «manipulação» das contas das holdings do Grupo Espírito Santo. Os movimentos partiram do Banco Espírito Santo Angola para contas de empresas com sede no Panamá e cujos beneficiários seriam Ricardo Salgado e Amílcar Morais Pires.

Onze dias antes de se ter deslocado ao DCIAP para prestar depoimento, Ricardo Salgado fez três retificações de IRS, num total de 4,3 milhões de euros, que justificou como sendo dinheiro que «foi ganho no estrangeiro» durante os 17 anos que trabalhou fora do país, após as nacionalizações de 1975.

Nessa altura, a PGR disse num despacho que Salgado não era suspeito no caso Monte Branco, nem havia indícios para lhe imputar prática de ilícito fiscal.

Três anos depois, o DCIAP continuou a trabalhar na operação Monte Branco, que também já deu origem a um inquérito para investigar as privatizações da EDP e da REN.

Na semana passada, os interesses do GES com os supervisores financeiros norte-americanos e o Ministério Público começaram a ser investigados operações no BES Miami e com a passagem para controlo do regulador local do ES Bank Panamá. As duas sociedades offshore de Salgado na lista de clientes da Akoya estão sediadas no Panamá.

No total, o BESA transferiu 27,3 milhões de dólares para as contas no Credit Suisse da Savoices e da Allanite, ambas identificadas na investigação. A Savoices, que estará ligada a Ricardo Salgado recebeu 13,8 milhões de dólares.

No fim de Junho, Salgado demitiu-se da presidência executiva do Banco Espírito Santo, pondo um fim à gestão de 22 anos à frente de um dos maiores bancos portugueses.

Atualmente, Ricardo Salgado também já não preside o conselho estratégico do Banco Espírito Santo, mas continua a ser um membro desse órgão.