O presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira, alertou esta quinta-feira o Governo para a necessidade de a TAP assegurar serviço público no Porto, e não apenas em Lisboa, se a reversão da privatização da empresa se concretizar.

“O que me parece é que devemos centrar a discussão política sobre o que vai acontecer à TAP. Se for pública, não nos interessa que faça o que tem feito, muito obrigado, para nós não nos serve”, afirmou Rui Moreira esta manhã aos jornalistas, numa declaração a propósito da suspensão de quatro ligações de médio curso (Europa) a partir do aeroporto do Porto.

Segundo o autarca independente, o Governo liderado pelo socialista António Costa “diz que não quer privatizar a TAP”, tornando-se assim imperioso “perguntar se o interesse público é apenas Lisboa ou se todo o país deve ser contemplado”.

“Se o operador permanecer público tem de prestar serviço público e, nesse caso, aí sim, exigiremos (…), por uma vez, que a TAP não seja a Air-alfacinha e seja a Air Portugal”, sustentou.

Caso se mantenha a maioria do capital (61%) da TAP nas mãos do consórcio Gateway, de Humberto Pedrosa e David Neeleman, para Moreira, a única forma de colmatar a supressão dos voos diretos a partir do Porto será “através do mercado”.

“Precisamos de continuar a ter companhias que atuam nos principais aeroportos europeus e que garantam a frequência desses mesmos voos. [A TAP], desaparecendo do médio curso, o mercado com certeza tratará do assunto”, frisou.

O autarca do Porto, que há dois dias desvalorizou a suspensão das ligações diretas do Porto a Barcelona, Milão, Bruxelas e Roma, considerando que a decisão "não preocupa" uma vez que estas cidades são ligadas através de outros operadores, afirmou hoje olhar para a questão “com alguma preocupação”, designadamente por perceber que “a TAP abandona o médio curso e começa a operar uma linha Vigo-Lisboa”.

“O que isto quer dizer é que se confirma que a TAP só vai ter um ‘hub’ (centro), que é Lisboa, aliás nos últimos anos é o que a TAP tem feito”, disse, acrescentando que “a TAP ao montar uma ligação de Vigo para Lisboa o que está a dizer é que quer que os passageiros da Galiza viagem para África ou América Latina, Brasil, através de Lisboa, evitando o aeroporto Francisco Sá Carneiro”, disse.

Para o autarca, esta “é uma decisão estratégica de um operador privado”, mas com uma eventual reversão do processo de privatização da TAP o interesse público deve contemplar todo o país e não apenas Lisboa.

“Há muitos anos, durante muitos anos, tivemos uma TAP publica que prestou serviço apenas a Lisboa. Espero que se agora houver uma reversão da privatização (…), se tivermos que ficar com a TAP, com todo o ónus que é para nós ficar com a TAP, ao menos que sirva o país todo, ou então não vale a pena, mais vale dizer que [a transportadora aérea nacional] é privada e opera onde quiser”, sustentou.

Rui Moreira adiantou ainda que no âmbito da sua visita à 36.ª Feira Internacional de Turismo (FITUR), em Espanha, fez já contactos para que um operador privado assegure a ligação Porto-Milão aos aeroportos Malpensa ou Linate.

O autarca do Porto voltou a referir que, “felizmente, pelo menos para já, não se verifica o mesmo risco” de suspensão das ligações intercontinentais da TAP a partir do aeroporto Francisco Sá Carneiro.

Lembrou ainda que ficou mais descansado quanto às ligações de longo curso a partir do aeroporto Sá Carneiro que teve com a administração da TAP em dezembro, mas disse que não está sossegado, “como não estava há um ano ou ano e meio, com a forma como a TAP estava a operar no Porto”.

O Governo admitiu na quarta-feira partilhar a gestão da TAP com o consórcio Gateway após a recuperação da maioria do capital para o Estado.

Na comissão de Economia, Inovação e Obras Públicas, o ministro do Planeamento e das Infraestruturas, Pedro Marques, disse que “o Estado considera importante a presença de um parceiro privado [no capital da TAP], que contribua para a capitalização e gestão da empresa" e admitiu "a possibilidade de partilhar a gestão com o consórcio, como aconteceu nos últimos anos, em que o Estado não interferiu na gestão”.

Na passada quinta-feira, o empresário David Neeleman defendeu que “a gestão é o mais importante” na TAP, desvalorizando a questão da titularidade da maioria do capital na companhia aérea, que deverá voltar para as mãos do Estado.