José Manuel Macedo Pereira, o revisor oficial de contas (ROC) e auditor do Grupo Espírito Santo, foi também quem assessorou a operação através da qual Ricardo Salgado retificou as suas declarações fiscais. Isto no âmbito do RERT, o regime excecional criado no Governo de José Sócrates, para regularizar património não localizado em Portugal que não foi declarado ao fisco, permitindo pagar uma taxa única mais baixa. Macedo Pereira garante que o ex-presidente do BES pagou tudo o que devia ao Estado. Nem menos, nem mais:

Por muito que diga [Salgado] que pagou mais, está errado. O Fisco não ficou lesado num cêntimo».

Ele diz que a importância foi uma liberalidade e, ao declará-la aqui em Portugal, (...) eu tive dificuldades em o portal das Finanças aceitar. Depois recebi indicação de como corretamente fazê-lo.

Se ele insiste em dizer que é uma liberalidade, é um problema dele. Terá de lhe perguntar


O ROC contrariou, na sua audição na comissão de inquérito ao BES, a versão de Salgado, de que terá pago, por sua culpa, mais do que devia ao Estado.

«A carta [de Salgado] diz duas coisas que me espantaram e não quero dar cabo de uma relação pessoal por causa disto. Ele até já me telefonou a dizer que assinava 30 e tal cartas por dia... [As retificações são feitas] só com base em informações que nos dizem: está aqui este rendimento e está aqui o comprovante. Se pagou a mais? Não é verdade»

O ex-presidente do BES procedeu a três correções fiscais. Uma delas, teve que ver com a polémica prenda de 14 milhões de euros do construtor José Guilherme, classificada como «liberalidade». «Como fiscalista, não concordo», admitiu Macedo Pereira. Mas o sistema é permissivo, nesse sentido, subentende-se.

O ROC remeteu-se a dizer que a Autoridade Tributária sabe como foi declarada a verba. O que era para ser pago, foi. «Não pagou mais». De qualquer modo, quis frisar por mais do que uma vez, Salgado é que tem de responder sobre esta matéria. Como voltará à comissão de inquérito, os deputados poderão questioná-lo sobre isso:

«O contribuinte Ricardo Salgado é que é responsável pelas suas declarações fiscais».  

Para além do mais, a matéria está em segredo de Justiça. Também por esse motivo, não se quis alongar. Apenas frisou que a AT «teve sempre conhecimento de tudo».  «Quem nunca se engana, geralmente não tem dúvidas. Eu engano-me. Mas a AT nunca me chamou a atenção sobre ter trocado A por B. Fico-me por aqui, com todo o respeito», acrescentou.

Questionado, mais à frente, por Mariana Mortágua (BE), sobre a natureza da relação profissional com Ricardo Salgado, respondeu:

«Foram relações de um homem que me auxiliou na vida. Eu próprio também o auxiliei quando ele teve de sair deste país para o Brasil (...) Qual é a liberalidade que tive por isso? Nem uma gravata» (...) «As relações que tenho são de amizade e de dívida para com um homem que me auxiliou»


Mas, frisou, sempre foi «um profissional liberal». Também por isso, e para não quebrar o elo de amizade com o ex-presidente do BES,  revelou ainda que não aceitou o convite para integrar a comissão de auditoria do banco, apesar do salário apetecível.