A agência de 'rating' Fitch defendeu esta quarta-feira que a queda do Governo de Passos Coelho revela "instabilidade política" do país, considerando que esta situação não se resolve com a indigitação de um Governo liderado pelo PS.

Em comunicado hoje emitido, a Fitch refere que "um Governo liderado pelo Partido Socialista, de centro-esquerda, e apoiado pelo Bloco de Esquerda e pelo Partido Comunista Português, mais radicais, iriam levar a uma maioria parlamentar", mas alerta que "isto não vai eliminar a incerteza política".

A agência de notação financeira argumenta que o acordo dos três partidos de esquerda "fica muito aquém de uma plataforma de política abrangente", destacando que "qualquer tipo de cooperação parecia improvável até há pouco tempo, tendo em conta as diferentes perspetivas e prioridades políticas", o que "aumenta o risco de que qualquer Governo que formem não cumpra o mandato completo".

"As declarações até agora sugerem que um potencial novo Governo tem poucas intenções de adotar algumas das propostas mais extremas dos partidos mais pequenos (como a reestruturação da dívida)", lê-se na nota da Fitch, que espera que os socialistas se mantenham comprometidos com as regras orçamentais europeias, o que "implica um abrandamento e não uma reversão dos planos de redução do défice existentes".


No entanto, a instituição considera que há "incertezas significativas" do lado orçamental, tendo em conta a incerteza política existente e a potencial constituição de um governo apoiado por partidos anti-austeridade.

A Fitch alerta que há "riscos para a consolidação orçamental e para a implementação de reformas", considerando que "a extensão destes riscos vai depender da coesão do novo Governo, do seu programa de política" e de saber se "a incerteza política prejudica a confiança dos mercados económicos e financeiros".

Além disso, a Fitch destaca que "as perspetivas para [adotar] reformas que promovam o investimento e o crescimento estão a diluir-se por causa da incerteza política", o que "será negativo" na medida em que a redução do défice e da dívida ficam mais dependentes de um bom desempenho da economia.

A agência de 'rating' deixa ainda um outro alerta: "Não se pode excluir a existência de mais incerteza política no médio prazo em torno da indigitação do próximo governo", uma vez que o Presidente da República, Cavaco Silva, "tem sido hostil quanto à ideia de uma aliança de esquerda formar Governo".

A Fitch espera que Cavaco Silva indigite o líder do PS, António Costa, para primeiro-ministro "nos próximos dias".

Quanto a ações de 'rating' futuras, a Fitch diz que um abrandamento da consolidação orçamental que gere uma trajetória de redução da dívida menos favorável ou um crescimento mais fraco que tenha impacto negativo nas contas públicas "podem levar a uma ação de 'rating' negativa".