Pedro Queiroz Pereira admite o arrufo, ou mais do que isso, com Ricardo Salgado. Ambos fizeram parte do BES e da ES Control e foi ele quem denunciou em outubro de 2013 os problemas nas contas do Grupo Espírito Santo. Aos deputados, na comissão de inquérito sobre o caso, disse que os problemas no Grupo Espírito Santo começaram «no início do século» e que «nada se fazia sem Ricardo Salgado». Ou seja, ele tinha de saber da ocultação de dívidaFoi mais longe: «O Dr. Ricardo Salgado tem um problema, pá, que não lida maravilhosamente com a verdade». 

«O BES em 2000 ou 2001 faz um aumento de capital e como aconteceu com outros banco, financiou offshores, para vir ao aumento de capital. Não tenho condições de provar, mas a minha convicção é essa (...) O Dr. Ricardo Salgado tem um problema pá, que não lida maravilhosamente com a verdade. Enfim, não quero entrar por aí e tem outras qualidades, certamente, e o grupo chegou onde chegou, mas também por coiso»


Ou seja, por vias menos ortodoxas, quis dizer. «As offshores era ele», atirou, provocando risos na sala de audições. «Perguntei a Salgado quem eram os senhores das offshores. E ele disse-me: não te preocupes, nós representamo-los, estamos ao teu lado. Eu não queria offshores dentro da minha holding, se calhar era dinheiro das drogas, das armas, eu pensei tudo…». Mas, lá no fundo, já suspeitava:

«No fundo, eu sabia quem era. Fui falar com Salgado e mostrei-lhe uma proposta generosa para comprar a participação a esses senhores. Disse-lhe: não vou aceitar que vocês nomeiem mais administradores que eu não sei quem são. E Salgado diz-me que eles não querem receber propostas. Conclusão: as offshores era ele».


«A ajuda que ele me dava era esta», ironizou, sempre bem disposto perante os deputados, e auxiliado pelo seu acompanhante nas falhas de memória. «Chegaram-me a dizer que eu não me preocupasse que ele me mantinha como CEO... Mas era como empregado dele». Mais uma ironia.

OS PRINCIPAIS TÓPICOS DA INTERVENÇÃO DE QUEIROZ PEREIRA, AO MINUTO

A deputada do BE, Mariana Mortágua, insistiu no assunto para saber se havia ou não tentativa da admininistração do GES para controlar o grupo Queiroz Pereira ou se Salgado era, apenas, um mediador de conflitos. «Essa de mediador de conflitos tira-me do sério», respondeu o empresário, que revelou que recusou nomear alguém para as offshores. Salgado terá encetado uma solução sua:  «Ele resolveu de quinta para sexta. [Na semana seguinte] uma nova offshore, mas ele dizendo que era dele, da ES Resources».

Sobre este ponto, a deputada do CDS-PP, Cecília Meireles quis perceber se é «costume» os bancos, quando fazem aumentos de capital, terem, ou criarem, offshores para esse efeito. «Parece-me um costume manifestamente ilegal, indesejável e criticável. Esta comissão tem como dever olhar para o sistema financeiro e ver como ele funciona», acrescentou, depois da pergunta. O empresário respondeu que sim. Embora tenha sublinhado que não tem «provas», tem bastante certeza sobre esse hábito, no passado:

«Eu não sei hoje, mas antigamente havia muito mais tendência para recorrer a offshores e, não me peçam que prove, mas tenho poucas dúvidas que bancos portugueses recorreram a offshores para fazer aumentoa de capital. Isto é uma afirmação extremamente grave, mas (...) isso passou-se muito em Portugal. Não me peçam pormenores, mas isso passou-se muito em Portugal»

 
Para além da tensão com Salgado por causa desse assunto, também viu um bloqueio à sua aquisição de ações da ESI. Daí as «peças do puzzle» que Pedro Queiroz Pereira foi juntando. «Pareceu-me que a senhora deputada [neste caso, Mariana Mortágua, do BE] ligou o não me venderem as ações (porque no fundo não me queriam lá, na Assembleia Geral) pela mesma razão que não me entregaram a informação que eu pedi. Não posso dizer que isso é factual. Mas acho normal que se pense isso. Eu penso», reconheceu ainda, para concluir que «isto está tudo na origem de um crescendo de desentendimento que culmina em eu ir ao Banco de Portugal».

Note-se que é, de facto, de longa data o seu arrufo com Ricardo Salgado. O primeiro ficou aborrecido com o segundo, acusando-o de querer ficar com a holding da sua família, a Sodim, que controla a Semapa, dona da Portucel, como admitiu Queiroz Pereira. O «litígio» foi «motivado por uma iniciativa do GES no sentido controlar o grupo Queiroz Pereira».

Foi em 2011 que notou uma «aceleração de compras nas holdings» do seu grupo e recorreu ao Banco de Portugal para pôr «um travão» na ambição do GES.

«Eu sabia da fragilidade financeira do GES, então como é que andavam a comprar ações da minha holding?». «Arranjaram motivos para me aborrecer e eu fiz o mesmo. Entrei com uma ação judicial no Luxemburgo quando arranjei as contas das holdings. Entretanto, juntámos as peças do puzzle e chegámos à conclusão que era uma situação calamitosa»


«Tenho de saber dançar a música que toca»

Pedro Queiroz Pereira assume que a sua ida ao Banco de Portugal «certamente terá assustado Ricardo Salgado».  «Poderá ter contribuído para fazermos o acordo que acabámos por fazer em novembro» de 2013, admitiu.

Miguel Tiago, deputado do PCP, quis saber qual «a contrapartida ou o arranjo» para o empresário ter retirado as queixas em tribunal contra o GES, precisamente na sequência desse acordo. 

«Eu deixei de ser sócio, já tinha dado as informações ao BdP, não tive dificuldade em aceitar retirar todos os processos», começou por explicar. Depois, acrescentou: «Eu não quis dizer que já estava tudo bem, fazia parte do acordo eu acreditar nos esclarecimentos. Eu sou empresário, não sou regulador. Se eu não tivesse perspicácia, não tinha chegado onde cheguei, tenho de saber dançar a música que toca».

Jorge Paulo Oliveira (PSD) perguntou se só quando enviou a carta ao BdP é que soube das «contas marteladas» que ocultavam uma «ESI falida». «Só nessa altura tive noção da justa dimensão. E é ai que nascem aqueles movimentos para depor Ricardo Salgado», respondeu.

Mais à frente, questionado pelo mesmo deputado admitiu que se não houvesse «conflito latente» com Ricardo Salgado, não teria feito as denúncias ao Banco de Portugal. 

«Se não houvesse conflito, eu preferia trabalhar em conjunto. Ter um banco como sócio é bom. Gostaria muito que isso tivesse sido possível. Mas tinha de haver consideração dos dois lados…»

José Magalhães (PS), por sua vez, insistiu bastante com Queiroz Pereira para revelar o acordo com o GES. Inicialmente, o empresário alegou «confidencialidade», embora tenha dito que não tinha «nenhum problema» em revelar, quando tivesse esse aval.

O PS avisou que ia pedir um requerimento nesse sentido, mas, mais à frente, Queiroz Pereira deu conta de ter sido informado que podia fornecer o contrato. «Não o tenho é aqui». Fa-lo-á chegar aos deputados, mais tarde. 

Quis assegurar, também, que o Banco de Portugal não teve nada a ver com o compromisso alcançado: «Eu nunca na vida troquei uma palavra, nem ao telefone, com o Dr. Carlos Costa. O BdP não esteve envolvido no acordo que estabeleci com o GES».

Revelou, por outro lado, que «toda a gente que pôs dinheiro no GES perdeu». A sua audição ficou ainda marcada por algumas revelações políticas. A primeira, por iniciativa própria, de um elogio a José Sócrates. A segunda, já confrontado pelo PS, sobre o facto de ter financiado a campanha de Cavaco Silva em 2011