Ouvido durante três horas e meia, o presidente da PricewaterhouseCoopers, José Pereira Alves, protagonizou uma das audições mais curtas da comissão de inquérito ao Grupo Espírito Santo e ao Banco Espírito Santo. 

A PwC, que auditou as contas do BES até 2002, deixou de fazê-lo por mútuo acordo. Mas, mesmo que o consenso não tivesse sido alcançado, garante que ia romper o contrato. José Alves explicou os motivos e adiantou, também, que o Banco de Portugal já sabia do problema da concessão de créditos há 13 anos. Por outro lado, fez algumas revelações em relação à auditoria conhecida em janeiro deste ano, sobre a PT e os seus investimentos no GES.

O resumo da audição em 9  pontos:

1 - PwC deixou de auditar o BES, depois de uma relação de mais de 10 anos, por se sentir «desconfortável» com a concentração excessiva de poderes em Ricardo Salgado, que era CEO, responsável financeiro e de contabilidade. A falta de segregação de poderes deixou a PwC com receio de «riscos adicionais». O clima era de «tensão» e «desgaste»

2 - Rescisão foi por «mútuo acordo», mas mesmo que não tivesse havido consenso, garante que teria deixado, na mesma, de auditar as contas

3 - PwC teve «dificuldades» em obter informações sobre as contas, com os seus pedidos a serem muitas vezes reencaminhados para Ricardo Salgado

4 - A não existência de contas consolidadas e auditadas ao GES também foi outro motivo invocado para não querer continuar prestar auditoria ao banco, até por uma questão de acautelar os riscos e a reputação da PwC

5 - Concessão de créditos pelo BES levantou a «suspeita» de que poderiam estar em causa investimentos do próprio banco

6 - PwC garante que advertiu o Banco de Portugal sobre essa elevada exposição, pelo que o supervisor sabe disso há 13 anos. BdP acreditou que eram empréstimos genuínos e não investimento encobertos do próprio banco. CMVM também sabia da preocupação em relação aos investimentos em offshores
 
7- Auditora «nunca» obteve as contas consolidadas da Espírito Santo Internacional (ESI), embora as tenha pedido. E problema vinha antes de 2000, com «montantes significativos de perdas geradas em anos anteriores». Mas sobre isso, não reportou nada ao Banco de Portugal, alegando que «não havia necessidade de imparidades, à data, dessas dívidas»
 
8 - Passou «toda a informação» à KPMG em 2002, quando a nova auditora começou a trabalhar para o BES, incluindo as reservas para aceitação do cliente»

9 - A Portugal Telecom mandou a PwC retirar juízos de valor no relatório de auditoria, divulgado a 9 de janeiro de 2015, sobre os investimentos da empresa de telecomunicações o GES (a PT investiu 900 milhões de euros na RioForte)

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