Henrique Granadeiro admitiu que foi Ricardo Salgado a sugerir a alteração das aplicações da PT na ESI para a Rioforte, mas negou ter lançado uma «boia» ao GES de 897 milhões de euros.

«Penso que Ricardo Salgado me falou nisso e eu enderecei o problema para o CFO [Pacheco de Melo]. Penso que o próprio Salgado terá falado com o CFO e explicado as vantagens de substituir as aplicações da ESI por aplicações na Rioforte».


Recorde-se que essas «vantagens» vieram a causar um buraco de quase 900 milhões de euros na Portugal Telecom. Segundo Granadeiro, Salgado justificou a mudança com a «reestruturação» do Grupo Espírito Santo que estava em curso no início de 2014 devido às exigências do Banco de Portugal.

«Foi o próprio BES que propôs a substituição das aplicações na ESI por aplicações na Rioforte, que passaria a ser a cabeça do grupo não financeiro».


Questionado pela deputada Mariana Mortágua se Salgado teria alegado problemas de liquidez na ESI ou na Rioforte, o ex-presidente da PT rejeitou o cenário.

«Essa história um pouco romântica, de que eu vi Salgado a afogar-se, a esbracejar, e lhe mandei uma boia de 900 milhões para o salvar… É romântico e até infantil, mas não tem nada de verdade».


A bloquista respondeu então que investir 900 milhões de euros «numa empresa já falida» é visto agora de «outro prisma», no que às «decisões mais ou menos infantis» diz respeito.

O ex-presidente da PT assegurou que não prometeu «nada» a Salgado, passando apenas a pasta ao administrador financeiro, Luís Pacheco de Melo, que terá então falado com o presidente do BES e com Morais Pires, CFO do banco. Pacheco de Melo será ouvido esta quinta-feira na comissão de inquérito e poderá confirmar, ou não, esta informação.

Granadeiro quis ainda fazer a distinção entre a aplicação de 200 milhões de euros que aprovou e as restantes, que culminaram num total de 897 milhões, já «decididos no âmbito da PT Portugal», ou seja, por Zeinal Bava.

«Esses contratos foram assinados a 10 de abril de 2014. Por esses 697 milhões eu não intervim. A responsabilidade terá de ser encontrada noutros responsáveis».


Sobre o seu papel nesses 200 milhões, Henrique Granadeiro diz que não negociou aplicações «com ninguém», inclusive Salgado.

«Limitei-me a falar com o CFO [Pacheco de Melo], o mais provável é que tenha sido até por iniciativa dele, e a dizer-lhe para ele falar com o CFO do BES e ver a possibilidade de realizar essa operação de 200 milhões».


O ex-presidente da PT pediu ainda para os deputados fazerem a distinção entre essa operação e «o somatório das várias aplicações», no total de quase 900 milhões de euros.

«É diferente uma mulher grávida de nove meses de nove mulheres grávidas de um mês».


Questionado várias vezes sobre quem decidia, na prática, essas aplicações, Granadeiro apontou o dedo sobretudo a Luís Pacheco de Melo, mas até admitiu que «alguém abaixo dele» o possa ter feito.

Já quando foi questionado pelo deputado do PSD Carlos Abreu Amorim, Granadeiro confirmou ter «uma excelente relação» com Ricardo Salgado, garantindo que, na sua relação empresarial, foi «independente dos afetos».

«O grande objetivo dele é a conta de exploração dos negócios deles, o meu grande objetivo é a minha conta de exploração. E eu não cedo na minha capacidade de decidir independentemente na minha conta de exploração. E aí, quanto mais próximo, mais fácil. É mais fácil dizer não a uma proposta de um amigo do que muitas vezes pessoas com quem faço demais cerimónias». 


Daí, o ex-presidente da PT garantir que «nunca essa ligação pessoal» foi «um fator de enviesamento» nos negócios entre a empresa de telecomunicações e o GES.

Carlos Abreu Amorim insistiu ainda no papel de Zeinal Bava nas aplicações na Rioforte, mas Granadeiro apenas confirmou que Salgado o informou que tinha falado com o então presidente executivo da Oi.
 

«Numa determinada fase, chamei a atenção, dado a contiguidade do aumento de capital com a maturidade dessas aplicações, e aconselhei Ricardo Salgado que devia dar uma palavra ao presidente executivo da Oi. Salgado disse-me que tinha falado com Bava. Se falou ou não, não posso confirmar. Não sou juiz nessa situação, porque não a testemunhei pessoalmente».


Mais tarde, e recordando declarações do CFO da PT, Pacheco de Melo, Henrique Granadeiro disse que é sua «convicção» que Zeinal Bava sabia destas aplicações, ao contrário do que afirmou na comissão de inquérito.

O ex-presidente da PT justificou a sua parte de investimento na Rioforte com a crença de que haveria sempre uma «almofada suficiente» no BES para o cobrir. Granadeiro citou até três «testemunhas» dessa crença: a ministra das Finanças, o governador do Banco de Portugal e o Presidente da República, porque «todos disseram que o BES não tinha problema nenhum». Para a Portugal na Telecom, as aplicações no GES tinham sempre como «contraparte» o BES, explicou.