A Grécia tem de cumprir os compromissos assumidos com os parceiros da zona euro e credores como fez Portugal, cujo austero resgate concluído em 2014 já está a dar frutos, visíveis no crescimento da economia e no acesso normal a financiamento de mercado, segundo o ministro da Economia, António Pires de Lima.

Em entrevista à Reuters, no âmbito da Reuters Euro Zone Summit , o ministro lembrou que o primeiro-ministro português «já disse que não participará em qualquer conferência sobre as dívidas europeias ou que aborde o tema de reestruturações da dívida», frisando: «a posição do Governo português é muito clara».

O governante Pires de Lima afirmou que Portugal está «na expectativa, com um princípio claro, que é um respeito enorme por aquilo que são as decisões democraticamente tomadas pelo povo grego, e um sentido, também muito claro e absoluto, daquilo que são as exigências próprias de um país pertencer ao clube do euro».

«A Grécia no final é senhora do seu próprio destino, embora como é evidente aquilo que se espera de um país que pertence à União Monetária é que assuma aqueles que são os compromissos, que estabeleceu com os países que fazem parte da Moeda Única e com os seus credores», disse o ministro da Economia.

Frisou: «nós sempre consideramos que, para recuperarmos economicamente e recuperarmos a nossa reputação, era importante como sempre aliás Portugal fez no passado, honrarmos os nossos compromissos financeiros».

«É natural que, se somos tão exigentes com nós próprios e enverdamos por um caminho que, não sendo o mais fácil, era aquele que nos permitia recuperar credibilidade e voltar a crescer, também seja essa a nossa atitude perante a situação de outros países», afirmou António Pires de Lima.

O novo Governo grego, liderado pelo partido antiausteridade Syriza, está num périplo europeu, mas o ministro das Finanças da Grécia, Yanis Varoufakis, disse que ele e o seu homólogo alemão, Wolfgang Schaeuble, nem sequer puderam «concordar em discordar» sobre os planos de Atenas para renegociar a dívida.

«O projeto da Moeda Única não está em causa, embora, como se deva compreender, é importante que esta situação da Grécia, até no interesse dos próprios gregos, seja clarificada», afirmou António Pires de Lima.

«Portugal cumpriu»

O ministro da Economia destacou que, com apenas um programa, concluído em Maio de 2014, Portugal fez o ajustamento económico que tinha de fazer, recuperou a credibilidade nos mercados financeiros e está numa situação de recuperação económica.

«Portugal fez tudo aquilo que era necessário para afastar o clima de suspeição que havia relativamente a Portugal, de afastar todas as sombras, todas a nuvens, todas as dúvidas», afirmou.

«Nós fizemos um caminho que precisávamos de fazer, o povo português merece ser elogiado e cumprimentado pela enorme força e coesão social que demonstrou no momento mais difícil».

No pico da crise das dívidas europeias há dois anos, Portugal foi contagiado pela Grécia dado que havia dúvidas que Lisboa executasse o duro programa de resgate, com cortes salariais e de subsídios, enormes aumentos de impostos, que atiraram o país para a mais grave recessão em três décadas.

Contudo, em Maio de 2014, Portugal concluiu o programa de ajustamento, como contrapartida dos 78.000 milhões de euros (ME) emprestados pela União Europeia (UE) e pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) em 2011, a economia voltou a crescer, pela primeira vez desde 2010, e o desemprego começou a descer.

Com este pano de fundo, o prémio de risco de Portugal caiu fortemente.

«De facto, regressámos ao financiamento normal nos mercados, em Maio de 2014», disse o ministro da Economia.

As Obrigações do Tesouro (OT) portuguesas a 10 anos estão a negociar nos 2,19%, perto do mínimo histórico de 2,11% tocado a 26 de Janeiro e indiferentes à incerteza sobre a permanência da Grécia na zona euro.

Recorde-se que, no final de 2013, aquela taxa estava nos 6,1% e no pico da crise soberana, no início de 2012, era superior a 17%.

«Estivemos apostados em recuperar a nossa reputação financeira e, com isso, ganhámos o estatuto de sermos um dos países do mundo com uma dívida mais interessante, em termos de investimento», afirmou António Pires de Lima.

«Quem investiu na nossa dívida há dois anos ou no ano passado, teve muito boas rentabilidades», vincou.