Poupar é a palavra de ordem e os portugueses, na sua maioria, devia ter começado ontem. Nem que fosse um euro.

Esta terça-feira celebra-se o Dia Mundial da Poupança, mas o aforro dos portugueses está em mínimos. Continuamos a ser muito conservadores nas nossas estratégias de investimento. Temos que arriscar e afetar parte das poupanças, sempre que possível, a investimentos a longo prazo, para se conseguir algum resultado.

Apesar da retoma financeira que tanto se fala, o nível de poupança dos portugueses tem vindo a decrescer. Na viragem do milénio, a taxa de poupança superava os 10%. Atualmente, está pouco acima de 4% do rendimento disponível e é uma das mais baixas da União Europeia, refere a Deco.

Acresce que a taxa de poupança tende em aumentar quando se atravessa momentos de maior crise. Em 2009 e 2010, esteve novamente acima dos 10%. Contudo, não se poderá afirmar com toda a firmeza que os portugueses pouparam efetivamente mais nesses períodos, acrescenta a associação.

Com estes dados em cima dam mesa fomos falar com a responsável do gabinete ao sobre-endividado da Deco. Natália Nunes, esteve no espaço da Economia 24 do “Diário da Manhã” da TVI, para nos ensinar a poupar. No mesmo dia em que a associação revelou que as famílias sobre-endividadas em Portugal, só as que pediram ajuda à Deco, já passam as 26 mil.

Como é que conseguimos poupar?

O ensino das crianças [literacia financeira] é fundamental para fazer um bom caminho de poupança ao longo da vida. Se as crianças tiverem educação financeira, nomeadamente nas escolas, até podem ser um veículo dos pais, ao levarem alguns conselhos para casa.

As famílias portuguesas têm poucas competências ao nível da literacia financeira?

Sim. Muita dificuldade na gestão do orçamento familiar. 

Mas também porque a realidade mudou?

Sim. Hoje privilegia-se o crédito. Não há vergonha alguma em recorrer a ele. Nos tempos dos meus avós, e quando me ensinaram a lidar com o dinheiro, o crédito era visto como algo negativo. Algo a que não devíamos recorrer. Privilegiava-se a poupança e só depois de ter dinheiro é que se gastava.

O mercado de crédito também mudou, desde a década de 90. Hoje temos uma grande oferta e, por outro lado, recorrer a crédito é uma coisa perfeitamente normal. Não é por acaso que os portugueses são dos que têm mais cartões de crédito na Europa e que mais os utiliza. O atual momento económico poderá ser positivo mas é preciso ter cuidado e estar precavido para uma possível conjuntura negativa que, a longo prazo, não acautela as necessidades criadas pelo aumento da esperança de vida e a redução expectável do valor das reformas pagas pelo sistema público.

Quem ganha 500 euros terá, com certeza, muita dificuldade em poupar?

É extremamente difícil, e não nos podemos esquecer que há muitas pessoas em Portugal com rendimentos iguais e até inferiores ao salário mínimo nacional e o grande desafio é sobreviver e não lhes faltar dinheiro.

A Deco fala de três etapas: gerir, economizar e poupar, para quem ganha pouco as dificuldades começam logo na primeira?

Gerir significa fazermos o nosso orçamento. É o melhor instrumento que temos para gerir o nosso dinheiro. Porque permite-nos saber onde estamos a gastar o dinheiro e tomarmos decisões mais responsáveis.

Como fazemos o orçamento mensal?

Basta pegarmos num papel, para os que são menos adeptos das tecnologias, ou numa folha de excel e colocarmos nessa folha as nossas receitas: o dinheiro que entra. E do outro lado, o que temos que pagar todos os meses.

Que limite não podemos passar?

O grande desafio é chegarmos ao final do mês e não termos um saldo negativo, para isso temos que ter alguns cuidados, concretamente com a taxa de esforço: o peso que as prestações de crédito têm no meu rendimento mensal.

Qual o limite da taxa de esforço?

Não pode ultrapassar 35% do rendimento. Se o rendimento mensal é de 1.000 euros, não posso gastar com créditos mais de 350 euros.

Mas não é suficiente para ter finanças equilibradas?

É necessário economizar e ter objectivos de poupança. A poupança não pode ser pensada para o final do mês. Tem que ser retirada no início do mês.

Economizar não é poupar?

Não. Economizar é algo que devo fazer durante o mês para poder ter, eventualmente, a tal disponibilidade para destinar à poupança.

Para o caso de surgir um imprevisto?

Não. O imprevisto deve ser um dos objetivos da poupança.

É a regra dos três potes?

Sim.

1 – A poupança dos imprevistos – pé-de-meia de emergência

2 – A poupança para acautelar o futuro. A idade da reforma. Não nos podemos esquecer que, quando lá chegamos, o rendimento se vai reduzir substancialmente.

3 – A poupança dos sonhos

E que dinheiro devemos destinar à poupança mensalmente?

Teoricamente, devíamos destinar 10% do nosso rendimento à poupança.

Mas na realidade isso é muito difícil?

Sim. Sobretudo, para pessoas de baixos rendimentos, ou que perderam hábitos de poupança. Cada um tem que estabelecer uma meta que possa atingir.