«Portugal é, de longe, o país dentro da União Europeia que, em percentagem do seu produto (interno bruto), maior esforço fez de apoio e solidariedade em relação à Grécia». Esta é a declaração de Passos Coelho que está a levantar polémica.
 
O primeiro-ministro falava na quinta-feira à noite, à saída da reunião do Eurogrupo em Bruxelas, para explicar porque tem sido dos mais resistentes aos argumentos gregos para renegociar a dívida.
 
A TVI fez as contas, e a declaração do primeiro-ministro está quase certa. Para perceber este «quase», é preciso voltar atrás no tempo, a 2010, quando a Grécia pediu ajuda externa, e ainda não existia o fundo europeu de resgate. À pressa, o país teve de ser ajudado através de empréstimos bilaterais dos vários países europeus.
 
Portugal contribuiu na altura com 1.100 milhões de euros, o equivalente a 0,61% do Produto Interno Bruto (PIB) desse ano. Só três países foram mais longe: Itália e Espanha avançaram 0,62% dos respetivos produtos, e Malta, com 1,5%, foi o mais generoso de todos.
 
Se quisermos olhar para além dos números, podemos lembrar que Portugal era das economias mais frágeis na lista dos que ajudaram a Grécia. Tanto que, um ano depois, seguia a decisão helénica de pedir ajuda externa. Por se encontrar ao abrigo de um programa de assistência, Portugal foi depois dispensado de participar nos resgates seguintes à Grécia.
 
Quanto valem 1.100 milhões?

Por isso, e até hoje, a exposição direta à Grécia resume-se aos 1.100 milhões de euros iniciais. O valor é uma gota de água no oceano da dívida portuguesa, por exemplo, mas em comparação com algumas das medidas de austeridade tomadas em Portugal nos últimos anos, não é de desprezar.
 
Por exemplo, 1.100 milhões de euros era o valor que o Governo de Sócrates previa poupar, no Orçamento do Estado para 2011, com o corte de salários da função pública – os cortes de 3,5 a 10% para salários acima de 1.500 euros, e que vigoram até hoje. Mil milhões de euros era também o valor que o Governo esperava arrecadar nesse ano com o aumento de dois pontos na taxa normal do IVA.
 
O valor emprestado à Grécia em 2010 equivale àquilo que os portugueses pagam de sobretaxa de IRS durante um ano e meio.