Os parceiros sociais manifestaram-se hoje contra a insistência da troika em reduzir os salários em Portugal e condenaram o comportamento «arrogante» e «autista» dos representantes internacionais.

Estas posições foram assumidas pelas confederações patronais e sindicais após duas horas e meia de reunião com representantes da Comissão Europeia (CE), do Banco Central Europeu (BCE) e do Fundo Monetário Internacional (FMI), no âmbito da 11ª avaliação ao Programa de Ajustamento Económico e Financeiro (PAEF) a Portugal.

A redução salarial foi um dos assuntos em cima da mesa. A troika considera que os salários em Portugal devem baixar mais 2 a 5%, mas patrões e sindicatos estão contra a ideia.

De acordo com o secretário-geral da CGTP, Arménio Carlos, esta reunião foi diferente das anteriores, «com muita frontalidade, mas onde ficou claramente definido que a troika, embora numa perspetiva já de saída, continua a considerar que manda em Portugal».

«Eles continuam a defender a tese de que é necessário reduzir os custos da energia, mas os salários têm de continuar a acompanhar essas mesmas reduções, ou seja, a pressão sobre os salários mantém-se para, segundo eles, aumentar a competitividade das empresas. Isto é insustentável», afirmou o sindicalista.

Arménio Carlos disse ainda que a troika «fez um apelo cínico e hipócrita» ao consenso em sede de concertação social, em prol de um acordo pós-troika, o que a CGTP rejeitou.

Posição muito crítica foi assumida pelo presidente da Confederação do Comércio e Serviços de Portugal (CCP), João Vieira Lopes, que acusou a troika de ter sido «arrogante» e de nada ter aprendido com a realidade vivida no país desde que Portugal está sob resgate.

«Foi uma reunião diferente das anteriores. A troika falou muito, foi arrogante, defendeu que o programa estava a funcionar sem o justificar e manifestou uma posição perfeitamente autista em relação ao resultado do seu programa», disse Vieira Lopes.

O presidente da CCP manifestou-se ainda contra a insistência dos credores internacionais na necessidade de reduzir ainda mais os salários, acrescentando que, «se de facto, insistem em mais cortes, os [cortes] já existentes só poderão tornar-se permanentes».

«Saímos daqui apreensivos perante esta insistência num modelo de baixos salários, dizendo que não há alternativas. Considera-se que a redução de despesa só poderá ser conseguida através da redução de salários e, portanto, este é o caminho que deve ser seguido», lamentou Vieira Lopes.

Já o presidente da Confederação Empresarial de Portugal (CIP), António Saraiva, considerou, por seu turno, que a troika foi «objetiva e manteve a ideia inicial dos méritos no programa de ajustamento».Relativamente à redução salarial, António Saraiva manifestou concordância com os credores internacionais na necessidade de manutenção «de uma moderação salarial».

«Consideramos que, de facto, deve haver uma moderação salarial e relativamente ao aumento do salário mínimo nacional, entendemos que esse deve ser negociado no âmbito de um acordo que deverá conter outros aspetos que beneficiem as empresas", disse António Saraiva.

Por último, a presidente da UGT, Lucinda Dâmaso, referiu aos jornalistas que «não houve nem mudança de discurso, nem mudança de avaliação das práticas nem das políticas introduzidas pela troika».

«A austeridade é para eles a melhor das receitas e entendemos que não é com baixos salários, com cortes nas reformas e nas pensões que o país terá solução», disse Lucinda Dâmaso.

Na agenda desta avaliação regular está a reforma estrutural das pensões, em que se pretende identificar medidas permanentes para garantir a sustentabilidade do sistema.