A empresa mais misteriosa do Grupo Espírito Santo (GES), que o Ministério Público suspeita tratar-se de um gigantesco saco azul, por onde terão passado mais de 300 milhões de euros e que serviu para entregar dinheiro e património de forma camuflada a destinatários ainda por identificar, recorrendo a circuitos complexos fora de Portugal, conseguiu ser mantida em segredo durante mais de duas décadas. 
 
Embora nunca tenha constado de nenhum relatório e contas do grupo, a Espirito Santo Enterprises (ES Enterprises) existe desde 1993 e foi criada por todos os membros do conselho superior do GES, o núcleo duro da família Espírito Santo, tendo, desde o início, como presidente Ricardo Salgado e como vice-presidente José Manuel Espírito Santo Silva.

As assinaturas de ambos, bem com as dos outros membros do conselho, constam de uma série de atos de gestão decididos ao longo dos anos, sendo que todos eles tinham poder para movimentar as contas bancárias associadas à empresa. 
 
No acervo de 11,5 milhões de ficheiros dos Papéis do Panamá, existem quase 100 documentos directamente relacionados com a ES Enterprises, alguns deles com dezenas de páginas, incluindo trocas de e-mails e atas de reuniões, que permitem reconstruir não só a história do saco azul do GES como algumas das suas actividades e de decisões importantes que foram sendo tomadas. Esses documentos têm estado a ser analisados pelo Expresso e pela TVI, numa investigação conjunta com o Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação (ICIJ), responsável por coordenar uma investigação global a partir de uma fuga de informação  de uma das maiores operadoras de offshores do mundo, a Mossack Fonseca, no Panamá, obtida pelo jornal alemão Süddeutsche Zeitung.
 
Inicialmente, esta sociedade do GES foi criada através de uma operadora de offshores das Ilhas Virgens Britânicas, a Trident Trust Company, mas em 2007, quando mudou de nome pela segunda vez — de ES Enterprises para Enterprises Management Services — a sua gestão fiduciária passou a ser feita pela Mossack Fonseca, fazendo com que toda a documentação que vinha detrás passasse a constar dos Papéis do Panama.
 
Em dezembro de 2014, durante a comissão parlamentar de inquérito ao BES, José Manuel Espírito Santo Silva chegou a dizer aos deputados que tinha tido conhecimento da ES Enterprises há pouco tempo — só depois de a sociedade ter sido referida pela primeira vez numa notícia do jornal Público, um mês antes.  Agora, ao Expresso e à TVI, diz que não se recorda de “ter tido algum cargo” na ES Enterprises e mantém que não tem “qualquer conhecimento da actividade” a que se dedicava a empresa.

“A memória e o conhecimento que tinha quando fui ouvido na Assembleia da República é o mesmo que tenho hoje, ou seja, trata-se de uma entidade da qual nada sei.” 
 

Bem-vindos ao labirinto Espírito Santo
 

Entre os ficheiros diretamente relacionados sobre a ES Enterprises, estão trocas de emails e documentos sobre a detenção de outras sociedades offshore que entram em contradição com o que Ricardo Salgado afirmou também na comissão de inquérito do BES, quando disse que se tratava de uma empresa que tinha como função “a regularização dos serviços partilhados do grupo” e, mais tarde, a prestação de “serviços à área financeira”, admitindo como “uma falha” o facto de nunca ter constado do organograma do grupo. Confrontado pelo Expresso e pela TVI com perguntas sobre a misteriosa empresa, Salgado optou por não falar, justificando-se com o facto de “não comentar processos em segredo de justiça”. 
 
De acordo com os documentos encontrados nos Papéis do Panamá, além de ter tido contas no Banque Privée Espirito Santo, na Suíça, e pelo menos no Banque Internationale à Luxembourg (BIL, antigo Dexia Lux), a ES Enterprises foi muito além do papel de prestadora de serviços, ao contrário do que referiu Salgado no Parlamento.

Esta sociedade foi dona de outras companhias offshore, que por sua vezes eram detentoras de outras sociedades, num esquema labiríntico. Um exemplo disso é a detenção por parte da ES Enterprises de uma companhia offshore incorporada nas Ilhas Virgens Britânicas, a Blygor Properties Inc, criada pela Mossack Fonseca a pedido da Eurofin, uma sociedade fiduciária que faz parte da esfera do GES e que também é considerada suspeita pelo Ministério Público por ter alegadamente ajudado a canalizar dinheiro do BES para pessoas relacionadas com a própria família Espírito Santo. 

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O suposto saco azul do GES foi titular das acções da Blygor entre janeiro de 2009 e junho de 2010, passando nessa altura a detenção da offshore para uma outra offshore, uma empresa chamada Polyreal S.A.L., cuja morada de referência é em Beirute, no Líbano, e que tinha como accionista formal um antigo gestor de fortunas do banco Julius Baer, na Suíça.

Um perfil típico que levanta suspeitas sobre quem  seria o beneficiário real da Blygor. E que são reforçadas por uma troca de e-mails com a Mossack Fonseca em agosto de 2010, em que uma gestora da Eurofin pedia desculpa por se ter enganado pelo facto de ter enviado anteriormente documentação assumindo que a nova proprietária da Blygor era uma outra sociedade, também criada a pedido da Eurofin: a Paison Holdings Limited, ainda mais complexa do que a Polyreal. 
 
O esquema encontrado é tortuoso. A que se dedicaria a Blygor Properties Inc, além de ser uma empresa de fachada? Para que serviria? De acordo com a investigação conjunta do Expresso e da TVI com o ICIJ, essa sociedade offshore era detentora de 100% de uma outra companhia, a Blygor KFT, que, por sua vez, era dona de um projecto imobiliário na Hungria. Estas e outras informação irão ser divulgadas, a seu tempo e em detalhe, pelo Expresso e pela TVI.
 
Numa entrevista dada ao Expresso a 25 de março, José Maria Ricciardi, primo do ex-presidente do BES e protagonista de uma guerra aberta com ele, disse estar convencido que “a liderança do dr. Ricardo Salgado vai dar-nos em Portugal uma situação parecida com a do caso Lava-Jato no Brasil”. Ricciardi, que preside ao Haitong Bank, antigo BES Investimento, admitia que “as investigações [judiciais] decorrem e a criminalidade económica é um assunto complexo, [que] envolve muitas geografias e offshores”.

Mas estava ainda longe de saber que, uma semana depois, iria ter início a maior colaboração alguma vez empreendida no mundo entre jornalistas.