Os que não gostam dela tratam-na por “princesa Juju”. Julienne Sassou Nguesso é uma das filhas de Denis Sassou Nguesso, que é presidente do Congo desde 1979, depois de um interregno de cinco anos entre 1992 e 1997. Julienne e uma outra figura feminina do regime congolês, Véronique Bokouangui Ngombe, antiga assessora do presidente para os assuntos sociais e atual embaixadora na Costa do Marfim, fazem parte da administração de uma offshore juntamente com os portugueses Hélder Bataglia e Luís Horta e Costa e o luso-brasileiro Fausto da Silva Costa. 

Documentos encontrados no acervo dos Papéis do Panamá, numa investigação conjunta com o Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação (ICIJ), revelam que este pequeno grupo de pessoas controla a Ecoplan Finance Limited, uma companhia offshore incorporada em maio de 1998 nas Ilhas Virgens Britânicas pela Mossack Fonseca, a sociedade de advogados do Panamá que está na origem da maior fuga de informação de sempre da história do jornalismo. 

De acordo com fontes contactadas pelo Expresso, com a ajuda da ANCIR (African Network of Centers for Investigative Reporting), Juliene e Véronique representam os interesses do próprio presidente do Congo, sendo que a offshore em causa é totalmente detida por donos congoleses. Denis Sassou Nguesso é um amigo de longa data de Hélder Bataglia e a Ecoplan Finance Limited serviu como uma sociedade-veículo para controlar o capital social da Escom Congo, uma das maiores empresas de construção e imobiliário do país. Bataglia não se mostrou disponível para comentar. 

Por detrás de 23 offshores das Ilhas Virgens Britânicas

Hélder Bataglia e Luís Horta e Costa são fundadores da Escom, o braço não financeiro do Grupo Espírito Santo (GES) para África, enquanto Fausto da Silva Costa foi o administrador financeiro da empresa desde o início, até ser substituído em 2002 por Pedro Ferreira Neto. Bataglia, que é presidente e dono de 33% da Escom, é o português com a maior presença nos Papéis do Panamá, com o seu nome referido em mais de 1200 documentos, logo seguido por Luís Horta e Costa. Os dois constam como beneficiários de 23 companhias offshore, todas elas registadas nas Ilhas Virgens Britânicas e todas elas criadas no âmbito dos negócios que a Escom foi estabelecendo em Angola e no Congo desde a década de 90. A incorporação destas empresas pela Mossack Fonseca foi feita através da Gestar, uma das empresas fiduciárias do GES, com sede em Lausanne, na Suíça.

Na lista de 23 nomes constam companhias ligadas à concessão de minas de diamantes em Angola, como a Escom Kimberlites LTD, a Equatorial Diamonds Limited, a Clear Sky Diamonds Limited ou a Sunset Diamdonts Limited, em que Bataglia e Luís Horta e Costa são referenciados como beneficiários, havendo também empresas ligadas ao imobiliário e à construção.  

Ao contrário da estrutura accionista da Escom em Portugal e em Angola, em que o GES controlava 67% do seu capital social, a Escom Congo foi até há pouco tempo detida em 50% por interesses congoleses. Com a derrocada do GES e do Banco Espírito Santo e o encerramento da Escom em Angola, que está ainda em curso, Denis Sassou Nguesso propôs uma solução para salvar a Escom Congo. Essa solução foi aceite por Helder Bataglia. Em janeiro de 2015, 67% da empresa passou a estar em mãos congolesas, através de um grupo de investidores locais, ficando 33% para o próprio Bataglia.

Inicialmente, a Ecoplan Finance era detida por ações ao portador, o que significa que os seus verdadeiros donos não foram formalmente registados nem declarados à Mossack Fonseca, conhecendo-se apenas quem eram os administradores da companhia. Nos ficheiros descobertos nos Papéis do Panamá, esses administradores estavam divididos em dois grupos: o grupo A, constituído pelos homens da Escom, e o grupo B, formado por Julienne Sassou-Nguesso e Véronique Bokouangui-Ngombe. Segundo um dos documentos, as decisões relativas à offshore podiam ser tomadas com as assinaturas conjuntas de um administrador do grupo A e um administrador do grupo B. Mais tarde, Bataglia e Horta e Costa assumiram-se formalmente como beneficiários da companhia. 

Os milhões da filha Sassou

Em novembro de 2014, a Mossack Fonseca deixou de gerir a Ecoplan Finance, por falta de pagamento dos serviços que estava a prestar. Sete meses mais tarde, numa due diligence feita em junho de 2015 pela operadora de offshores ao nome de Julienne Sassou Nguesso, e que está reproduzida nos Papéis do Panamá, os serviços de compliance da Mossack Fonseca deram de caras com um artigo publicado em dezembro de 2013 pelo jornal francês Liberation, “Os milhões da filha Sassou”. O jornal descrevia a filha do presidente congolês como sendo oficialmente “uma agente de seguros” casada com um jurista, Guy Johnson, e revelava como a polícia francesa tinha em curso uma investigação sobre uma mansão que o casal comprou e restaurou em Neuilly-sur-Seine por oito milhões de euros. Segundo a notícia, a polícia encontrara a origem do dinheiro gasto no imóvel. Alegadamente, um grupo de telecomunicações egípcio, Orascom, pagara um suborno de 12 milhões de euros a Juliene e a Guy através de contas bancárias tituladas por companhias offshore nas Seychelles e nas Ilhas Maurícias, em troca da atribuição de uma licença para operarem no Congo. Não havia uma única referência à Escom Congo.

Com uma facturação anual de 150 milhões, a Escom Congo está a construir um dos maiores complexos de escritórios de Brazzaville, tendo-se associado ao arquitecto que desenhou as torres Escom em Angola, que são atualmente os prédios mais altos de Luanda. A empresa está também a investir na prospecção de coltan, um minério que é usado no fabrico de aparelhos electrónicos portáteis, incluindo telemóveis. 

A relação entre Hélder Bataglia e Denis Sassou Nguesso começou em 1997, pouco antes da criação da Ecoplan Finance. De acordo com o perfil do presidente da Escom publicado pelo Expresso, na revista E, em julho do ano passado, Sassou Nguesso mandou chamar o português a Paris, onde o político preparava a sua candidatura às eleições desse ano, que acabariam por marcar o seu regresso à presidência.  Queria que a Escom fizesse no Congo o que estava a fazer em Angola. O país entrou em guerra civil, mas Bataglia aceitou o desafio e desembarcou com dois aviões russos em Brazzaville, carregados de equipamentos de engenharia. O português construiu o aeroporto internacional de Ollombo, pôs de pé a sede da rádio nacional e pavimentou uma parte das ruas da capital. Em contrapartida, foi nomeado cônsul-honorário do Congo.