A agência de notação financeira Fitch ameaça voltar a descer o “rating” de Portugal se o Governo não conseguir travar a trajetória da dívida pública. A Fitch diz, esta terça-feira, que o Orçamento de 2016 se baseia em previsões de crescimento e estimativas de despesa e receita irrealistas. E se o défice não encolher para os 2,6% previstos e o crescimento for mais fraco, isso terá efeitos negativos nas finanças públicas.
 
A agência acrescenta que o abrandamento dos mercados emergentes e a fragilidade do crescimento da Zona Euro podem pôr em risco a estratégia socialista de aumentar o crescimento através da procura externa e, por isso, a previsão de um crescimento de 2,1% em 2016 pode ser otimista.
 

“O esboço de Plano Orçamental Português para 2016 pretende manter a consolidação orçamental, mas baseia-se em estimativas de crescimento e em planos de receita e despesa que se podem revelar irrealistas”, considera a agência de notação financeira Fitch.


Os analistas lembram que, no "draft" que seguiu para Bruxelas na sexta-feira, o Governo do PS prevê uma redução do défice para 2,6% do Produto Interno Bruto (PIB) este ano, abaixo dos 2,8% que estimava inicialmente no Programa de Governo, mas aquém do défice de 1,8% previsto pelo anterior executivo PSD/CDS-PP, liderado por Pedro Passos Coelho.

“Esta meta é consistente com as nossas expetativas de que um novo Governo manteria o compromisso socialista de longa data de respeitar as regras orçamentais europeias” de consolidação orçamental, afirmam os analistas da agência de "rating".

Considerando que o esboço orçamental demonstra que não há “dissidências significativas” do Bloco de Esquerda e do PCP, a Fitch afirma que “há espaço político para a consolidação” orçamental.

No entanto, a agência sublinha que as previsões orçamentais de médio prazo dependem em muito de uma recuperação económica contínua, o que pode significar “um risco negativo” às metas orçamentais do Governo.

O Executivo estima um crescimento económico de 2,1% este ano, o que fica bastante acima das previsões da Fitch, de um avanço do PIB de 1,7%.

“Os dados recentes não demonstram nenhuma melhoria notável nas taxas de crescimento e a expectativa de que o aumento da procura externa vai impulsionar as exportações pode vir a revelar-se otimista, dado o abrandamento das economias emergentes e o fraco crescimento da zona euro”, afirma a agência de ‘rating’.

Além disso, a Fitch aponta que o Governo deixa por esclarecer como é que vai “conciliar o seu objetivo de uma consolidação orçamental moderada com o seu compromisso eleitoral de reverter medidas de austeridade”.

Quanto à dívida pública, o Governo prevê uma redução para 126% do PIB no final do ano, “o que dependerá da implementação da consolidação prevista, mas também de fatores extraordinários (‘one-off’), como o eventual custo da venda do Novo Banco”, escreve a Fitch.

A estimativa para a dívida pública está “ligeiramente” abaixo das perspetivas da agência financeira, que antecipa uma dívida de 127,9% do PIB em 2016, tendo em conta estimativas da agência de “um menor crescimento e de maior défice”, sem especificar qual.

As finanças públicas e o ritmo de consolidação orçamental são “fatores sensíveis” para o rating atribuído à dívida soberana de Portugal pela Fitch, que atualmente ainda é ‘BB+’, com perspetiva positiva, ou seja, “lixo”.

“Um relaxamento orçamental que resulte numa trajetória menos favorável na dívida pública poderá levar a uma ação negativa sobre o "rating", do mesmo modo que um crescimento enfraquecido pode ter um impacto negativo nas finanças públicas”, afirma.

A Fitch deverá analisar a situação de Portugal a 04 de março e a 19 de agosto.