O antigo ministro das Finanças Silva Lopes afirmou que as chamadas reformas estruturais são apenas «mudanças de vírgulas», defendendo a necessidade de haver «um ministro sénior encarregado da coordenação» destas reformas.

«A gente apresenta como reforma estrutural umas mudanças de vírgulas e aquilo não é nada», disse o ex-governante na 10.ª Conferência Anual da Ordem dos Economistas, que decorre em Lisboa esta quarta-feira.

José Silva Lopes defendeu que «o grande desafio é fazer mais reformas estruturais, mas reformas mais profundas e mais difíceis, com uma organização completamente diferente».

Para o antigo governador do Banco de Portugal, isto exige «algum consenso partidário», até porque não pode haver «um Governo a puxar no sentido de uma economia liberal e o resto do país em sentido contrário e o resto do país não está disposto a aceitar uma economia completamente liberal».

Silva Lopes defendeu ainda que «é preciso que haja dentro do Governo um órgão forte», como seja «um ministro sénior encarregado da coordenação das reformas estruturais», o que exige «outra organização institucional» para fazer destas reformas uma prioridade do país.

O antigo ministro das Finanças referiu-se à reforma do Estado, defendendo que «o Estado precisa de ter gente boa» e que «o problema da falta de gente no Estado é enorme».

«Temos de olhar para a reforma do Estado a sério, mas isto provavelmente só lá vai com uma revolução», concluiu.

O problema das reformas estruturais que ficaram por fazer durante o programa de assistência financeira foi referido por vários participantes na conferência que decorre hoje na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.

O presidente da Fundação, Artur Santos Silva, afirmou que «os cortes mais ou menos cegos nos primeiros tempos eram naturalmente inevitáveis», mas disse que «faltou uma verdadeira reforma do Estado, da administração central e local».

Santos Silva apontou os exemplos da Suécia, da Austrália e do Canadá que disse terem «desafios comparáveis» com os de Portugal e fizeram «uma reforma com tempo, com princípio, meio e fim», uma «desafio que não foi devidamente enfrentado» em Portugal durante o resgate.

Também a presidente do Conselho das Finanças Públicas (CFP), Teodora Cardoso, sublinhou que "a maior dificuldade [do país] é continuar a reduzir a despesa daqui para o futuro".

«Durante o programa de assistência, as medidas eram de emergência, foram sobretudo assentes em cortes horizontais de várias naturezas que não alteraram grandemente aspetos estruturais da despesa pública, que continuam a precisar de ser corrigidos", defendeu Teodora Cardoso, destacando a necessidade de ter uma administração pública "capaz de perceber a economia e de adaptar as políticas a essa evolução», ou seja, «muito menos burocrática e muito mais simplificada».

Outro orador presente no debate foi o economista João Salgueiro, que afirmou que Portugal «não tem austeridade a mais, tem eficiência a menos».

O antigo ministro das Finanças defendeu a necessidade de «encorajar o investimento produtivo», por oposição ao investimento «em estradas, estádios e museus», que implicam custos de manutenção no futuro.

Numa breve intervenção, o professor universitário João César das Neves concordou com a generalidade das críticas que foram sendo apresentadas e terminou afirmando que sabe qual é a solução para o problema do país: «É chamar a ‘troika' já. Não é preciso dinheiro, é só chamá-los cá», cita a Lusa.