O economista da OCDE responsável pela economia portuguesa considera que, num cenário de menor crescimento, o Governo «não deve procurar desesperadamente medidas de substituição» para cumprir a meta do défice, porque isso criaria uma «espiral negativa».

Destacando que «o evento mais provável» que a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) antecipa para Portugal é a «continuação gradual da recuperação da economia portuguesa», Jens Arnold disse, em declarações à Lusa, que, «se algo imprevisto acontecer e se o crescimento for mais lento do que o projetado», é importante que as autoridades portuguesas «não tenham uma visão religiosa do número absoluto do défice nominal».

«Temos de deixar os estabilizadores automáticos reagirem em conformidade se algo assim acontecer. Isto significa ter despesas mais elevadas nos benefícios do desemprego, mas também menos receitas fiscais, por exemplo», afirmou Jens Arnold, economista da OCDE responsável pela economia portuguesa.

Para o economista, «neste caso, o Governo não deve ficar desesperadamente à procura de medidas de substituição [para cumprir a meta do défice orçamental], porque há um risco de incorrer numa espiral negativa em que [adotar] mais medidas de consolidação orçamental só para cumprir o objetivo do défice ia deprimir ainda mais o crescimento».

No Economic Outlook, hoje apresentado, a OCDE estima que Portugal cresça 1,1% em 2014 e 1,4% em 2015, perspetivas ligeiramente mais conservadores do que as do Governo e dos credores internacionais, que apontam para um crescimento de 1,2% e de 1,5% este ano e no próximo, respetivamente.

Em relação à trajetória da dívida, a OCDE antecipa que a dívida pública de Portugal continue a subir pelo menos até 2015, atingindo os 130,8% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2014 e os 131,8% no ano seguinte.

No entanto, Jens Arnold justifica esta previsão com «processos mecânicos», garantindo que a OCDE «não tem dúvidas sobre a sustentabilidade da dívida [pública portuguesa] nesta altura».

«Há muita incerteza em relação à trajetória exata da dívida e não é fácil fazer projeções para o futuro muito próximo. O que é mais importante é que partilhamos da análise do Governo e da troika [Fundo Monetário Internacional, Comissão Europeia e Banco Central Europeu] e não temos dúvidas sobre a sustentabilidade da dívida nesta altura», disse o economista, acrescentando que «o nível da dívida portuguesa vai cair muito em breve».