A prioridade dos governos depois da crise económica de 2007-2008 deve ser aplicar políticas sociais «à prova de crise», prontas para lidar com o pior que possa acontecer na economia global, defendeu hoje a OCDE.

No relatório 'Society at a Glance', o secretário-geral da organização que junta cerca de 40 dos países mais desenvolvidos, Angel Gurria, escreve que no seguimento da crise financeira e económica que começou no final da década passada, «a prioridade deve ser garantir que as políticas sociais são à prova de crise, prontas, por outras palavras, para lidar com o pior que possa acontecer na economia global».

No documento, com mais de 150 páginas, recomenda-se que a despesa e o investimento social sejam «mais bem direcionados para responder às necessidades mais urgentes do tecido social» e defende-se que «os sistemas de segurança social devem operar no máximo da eficiência, dando prioridade à adaptação ao mercado laboral e à evolução demográfica, gastando o menos possível na administração e na burocracia».

Por outro lado, os peritos da OCDE alertam contra a tentação de adiar as reformas, agora que a retoma económica já chegou a muitos países, considerando que «isso seria um erro» devido às provas que existem relativamente ao declínio na confiança nas instituições, nomeadamente nos governos.

«A evidência de uma quebra na confiança dos governos desde a crise deve servir como um alerta sobre quão rapidamente a coesão social pode quebrar-se. Para responder, os governos devem demonstrar que conseguem responder eficazmente às necessidades da sociedade e também garantir que as políticas sociais contribuem para desenvolver a resiliência dos seus cidadãos quando lidarem com futuras crises», escreve o secretário-geral da OCDE no editorial que introduz o relatório.

Um dos exemplos apresentados no relatório para mostrar que a crise económica e financeira de 2007-2008 desaguou numa crise social diz respeito aos números sobre o desemprego, mas também nas perspetivas de vida, nos salários e mesmo na maneira como as pessoas se organizam.

«Cerca de 48 milhões de pessoas nos países da OCDE estão à procura de um emprego e mais milhões estão em dificuldades financeiras», lê-se no documento, que afirma ainda que o número de pessoas que vivem num agregado familiar sem qualquer rendimento duplicou na Grécia, Irlanda e Espanha, três dos países europeus mais afetados pela crise económica

Salientando a dificuldade de aferir as consequências da crise em aspetos como a decisão de ter filhos ou de aceitar um emprego que paga o mesmo ou pouco mais que o subsídio de desemprego, o relatório admite que «algumas das consequências da crise em áreas como a formação de famílias, a fertilidade ou a saúde, só serão sentidas a longo prazo», razão pela qual «é difícil quantificar o impacto a longo prazo na saúde das pessoas».

De uma maneira geral, no relatório defende-se que é fundamental poupar durante as fases de crescimento económico, que os cortes nas despesas sociais devem ser mais seletivos e que é preciso começar já a preparar a próxima crise, implementando as reformas necessárias e aumentando a eficiência na atribuição das prestações sociais e nos gastos nos grandes agregados, como a Educação ou a Saúde.