Mais de metade dos empregos criados nos últimos 18 anos são a tempo parcial, contratos a termo ou trabalho independente, conclui um estudo que analisa as desigualdades nos países da OCDE e em várias economias emergentes.

Segundo o relatório da OCDE, o fosso entre ricos e pobres diminuiu, mas Portugal continua entre os países mais desiguais e com maiores níveis de pobreza consolidada.

O estudo, apresentado hoje em Paris, assinala também que a desigualdade nos rendimentos atingiu níveis recorde na maioria dos 34 países que integram a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico (OCDE) e mantém-se em níveis ainda mais elevados em várias economias emergentes, como a China ou a Rússia.

Atualmente, na zona OCDE, os 10 por cento mais ricos têm rendimentos 9,6 vezes superiores aos 10 por cento mais pobres, proporção que era de 7,1 na década de 1980 e de 9,1 nos anos 2000.

O estudo sublinha ainda a necessidade de os países se preocuparem com as condições de trabalho, alertando para o aumento das pessoas que trabalham a tempo parcial, com contratos de duração limitada ou como trabalhadores independentes.

"Entre 1995 e 2013, mais de metade de todos os empregos criados nos países da OCDE eram de uma destas categorias. Os trabalhadores pouco qualificados com contratos temporários, em particular, têm rendimentos muito mais baixos e mais instáveis que os trabalhadores permanentes", adianta o estudo.


Os jovens são os mais afetados, com 40 por cento dos jovens a ocuparem um emprego atípico. Cerca de metade dos trabalhadores temporários têm menos de 30 anos.

Os jovens são também menos suscetíveis de passar de um trabalho temporário para um emprego permanente e estável.

"Atingimos um ponto crítico. As desigualdades nos países da OCDE nunca foram tão altas desde que há dados", disse o secretário-geral da OCDE, Angel Gurría, durante o lançamento do relatório.

"Os dados mostram que as fortes desigualdades prejudicam o crescimento. A ação política deveria ser motivada tanto por razões económicas como por razões sociais. Ao não atacarem o problema da desigualdade, os governos enfraquecem o tecido social e comprometem o crescimento económico a longo prazo", acrescentou.


O relatório assinala que o fenómeno da concentração de riqueza é ainda mais acentuado quando se fala de património imobiliário.

Em 2012, os 40% da população mais pobre tinha apenas três por cento do património imobiliário nos 18 países da OCDE para os quais existiam dados.

No outro extremo, os 10% dos mais ricos tinham metade do património e os um por cento mais ricos 18% do património.

A OCDE sublinha igualmente a necessidade de se fazer mais para reduzir as diferenças entre homens e mulheres.

O aumento do número de mulheres que trabalham contribuiu para limitar as desigualdades, ainda que a probabilidade de elas ocuparem um emprego remunerado seja inferior em cerca de 16% à dos homens.

Além do impacto sobre a coesão social, o estudo sublinha que a acentuação das desigualdades e as fracas oportunidades no mercado de trabalho prejudicam o crescimento económico ao longo prazo.

A desigualdade nos países da OCDE é mais marcada em países como o Chile, México, Turquia, Estados Unidos e em Israel e menos marcados na Dinamarca, Eslovénia, Eslováquia e Noruega.

Mantêm-se muito elevadas nas grandes economias emergentes, mas reduziram-se em alguns países, nomeadamente no Brasil.

Para reduzir as desigualdades e estimular o crescimento inclusivo, a OCDE recomenda aos governos que promovam a igualdade entre homens e mulheres em matéria de emprego, alarguem o acesso a melhores empregos e encoragem o reforço do investimento na educação e no reforço de competências ao longo da vida ativa.