O número de casais em que só a mulher trabalha tem vindo a aumentar, assim como a percentagem em que ambos estão sem trabalho, que representa cerca de 2,6% dos agregados, revela o relatório do Observatório das Famílias.

Esta realidade é o reflexo das «situações de subemprego e de precariedade laboral», adianta o relatório do Observatório das Famílias e das Políticas de Família (OFAP).

A percentagem de casais em que o homem trabalha a tempo inteiro e a mulher a tempo parcial (modelo do «ganha-pão e meio») é pouco expressiva em Portugal (3,8%), um valor abaixo da média de 7,5% para o conjunto dos países analisados.

Já a percentagem de casais em que ambos estão sem trabalho está acima da média, representando cerca de 2,6% dos agregados de casais.

O OFAP adianta que o modelo em que apenas a mulher ou o homem estão empregados tem um peso mais elevado nos níveis de escolaridade mais baixos (21%) e nos grupos de idade mais velhos (51 e os 65 anos).

Por outro lado, é também nos níveis de escolaridade mais baixos onde se regista a percentagem de mais elevada de ambos sem trabalho pago, salienta o relatório.

Em 2010, os casais em que só o homem trabalhava representavam 18% dos agregados de casais entre os 18 e os 65 anos, enquanto os casais em que só a mulher trabalhava representavam 17%.

«O aumento do número de casais em que só a mulher trabalha fora de casa deve-se, sobretudo, ao desemprego gerado pela crise económica, que tem vindo a atingir alguns dos setores profissionais tradicionalmente masculinos», explica o relatório.

Enquanto a participação masculina no mercado de trabalho se tem mantido mais ou menos estável ao longo dos anos, a participação feminina aumentou cerca de 12%, sendo em grande parte responsável pelo aumento da taxa de atividade em geral.

Esta situação «atesta a consolidação de um modelo de família centrado numa divisão mais simétrica e igualitária do trabalho pago, em que ambos os cônjuges participam no mercado de trabalho e contribuem para o rendimento familiar, o modelo do casal duplo emprego a tempo inteiro», sublinha.

Em 2012 exerciam atividade profissional 47,5% das mulheres portuguesas, mas estes valores são bem mais elevados nas faixas etárias 25-34 anos (89,1%) e 35-44 anos (87,7%).

Como fatores explicativos do forte aumento da participação feminina no mercado de trabalho, o relatório destaca a emigração masculina, a guerra colonial, a terciarização do tecido económico, a evolução dos níveis de escolaridade feminina e as mudanças de valores relativos aos papéis de género.

Até 2011, a taxa de desemprego feminina foi sempre superior à taxa de desemprego masculina mas, em 2012, verificou-se uma inversão, ainda que ligeira, dessa tendência, com o desemprego masculino a ultrapassar o feminino.

«Uma das explicações para esta tendência reside no impacto da atual crise económica afetar alguns setores profissionais tradicionalmente masculinos», refere o OFAP

Do ponto de vista das tarefas domésticas, apesar de ter havido alguma aproximação nas horas trabalho doméstico feminino e masculino, as mulheres ainda fazem, em média, mais horas semanais de trabalho doméstico do que os homens.

Esta aproximação deve-se, sobretudo, à diminuição do número de horas que as mulheres gastam em tarefas domésticas.