Quem investiu em obrigações da Portugal Telecom SGPS corre cada vez mais risco de ver o dinheiro “por um canudo” ou, pelo menos, parte dele.

É que a Oi, a empresa brasileira que ficou com esta responsabilidade de pagamento após a cisão da Portugal Telecom SGPS em duas, encontra-se numa situação financeira complicada, como um dívida de cerca de 13 mil milhões de euros, o que dificulta o cumprimento de compromissos, nomeadamente para com os obrigacionistas.

E, a pouco mais de um mês do confronto com a dura realidade estão os obrigacionistas que investiram em papéis cuja maturidade finda no próximo dia 26 de julho.

Tal como a TVI noticiou, a 1 de junho, o relógio está a contar para a linha de obrigações cujo reembolso ronda os 231 milhões de euros. Na altura da sua constituição, em 2012, eram 400 milhões, que foram subscritos ao balcão por cerca de 20 mil investidores, 18 mil dos quais subscreveram até 50 mil euros cada. Mas em 2015, com a alteração de emitente, a que levou o desmembramento da PT, foi dada aos obrigacionistas a hipótese de venderem e não passarem para a PT Internacional Finance que ficou com estas obrigações e com outras de diferentes maturidades - no total cerca de uma dezena, na maioria obrigações cuja maturidade mais longínqua vence em 2025.

“Neste momento não é possível saber quantas pessoas venderam na ocasião em que houve alteração de emitente”, disse à TVI André Gouveia, economista da DECO.

 

A organização tem recebido pedidos de esclarecimento de alguns obrigacionistas da PT mas o responsável assegura que há muito que o investimento em obrigações de empresas preocupa a DECO. Não só porque, no limite, podem acontecer situações como esta mas porque há muitos pequenos investidores que não têm cuidado com a diversificação do risco. “É importante não colocar grandes montantes num único ativo” seja em obrigações ou outros, alerta André Gouveia.

No caso dos obrigacionistas na PT, atualmente, “não há grandes opções” e tudo depende da situação de cada um, refere o economista.

No âmbito da renegociação da dívida, a Oi terá feito várias propostas. Mas até agora não há qualquer concretização. A operadora terá chegado a propor a troca de obrigações por ações da empresa. Segundo o Expresso deste fim-de-semana, a Pharol – uma das empresas que resultou da cisão da PT SGPS e a maior acionista da Oi – discordou do tratamento diferenciado entre obrigacionistas. Um ponto de discórdia que mantém, para já, tudo em aberto no que toca à forma como os credores serão reembolsados.

Claro que quem investiu nestas obrigações pode sempre vendê-las em mercado secundário, mas estão a valer ainda menos do que a proposta da Oi: apenas 45% segundo refere o economista da DECO. Contas feitas, se cada uma das obrigações valia 1.000 euros em 2012, agora só vale 450 euros no mercado secundário.

DECO deixa uma sugestão

E então o que fazer é a pergunta. Segundo as sugestões da DECO/ Proteste, "se aplicou capital sobre o qual não pode suportar uma perda quase total, será mais prudente tentar alienar parte do investimento para reduzir a exposição, ainda que tal corresponda a assumir uma perda significativa sobre esta parte do investimento.

Mas se o investimento já é uma pequena parte do património, tentar vender neste momento poderá não ser o mais vantajoso.

A DECO/ Proteste lembra que, segundo as agências de rating “o processo de restruturação da dívida típico geralmente permite uma recuperação entre 50% a 30% para os credores. Supondo que o investidor adquiriu as obrigações pelo valor nominal (100% - o caso de quem subscreveu a oferta pública), ao vender pela cotação atual está a encaixar uma perda de aproximadamente 60%”.

“Caso mantenha os títulos, provavelmente só sofrerá perdas muito maiores se a Oi resvalasse para um processo de falência descontrolada. Neste momento isso parece pouco provável, já que a Oi tem uma almofada de capital que seria à partida suficiente para 2016”, acrescenta a instituição.

“Neste contexto, caso seja uma pequena posição e aceite o risco, pode manter os títulos na expectativa de vir a recuperar um valor superior. O que, repita-se, poderá passar por aceitar um prazo de pagamento mais longo ou receber ações da Oi”, conclui.

Nas sugestões a quem investe a DECO/ Proteste recorda ainda que, em caso de incumprimento por parte da Oi na maturidade, não será possível acionar o Sistema de Indemnização aos Investidores porque o mecanismo protege-os contra falhas no cumprimento das obrigações por parte do agente depositário dos valores mobiliários, mas não protege contra a desvalorização desses ativos, nem contra o incumprimento ou insolvência do emitente”.

Sem sinal de acordo à vista

O fato é que, para já, não há qualquer sinal de fumo branco na discussão entre as partes, tal como diz o comunicado divulgado pela Oi na passada semana. “Até esta data, não foi alcançado nenhum acordo a respeito dos termos da Transação. Embora as negociações entre o comitê e a companhia continuem no futuro, não é possível assegurar que as negociações continuarão ou, caso continuem, que as mesmas irão resultar em um acordo com relação aos termos de uma transação”.

A empresa acrescenta no comunicado que cerca de 60% do que tem a receber está dado como garantia aos bancos brasileiros. O que revela também um pouco da atual situação da operadora brasileira.

Em maio a Pharol fez saber que deixou ser acionista direta da Oi, ao concluir a operação que lhe permitiu transferir para a holandesa Bratel os seus 22,24%. A Pharol passou a acionista indireta e a Bratel a detentora direta do capital da maior operadora brasileira.