A oferta do Novo Banco, para ficar com as obrigações de investidores institucionais e pequenos aforradores, está a decorrer. Vender: sim ou não, e quais as consequências, são as dúvidas. A decisão é muito pessoal. A TVI24, falou com Filipe Garcia, economista da IMF, Informação de Mercados Financeiros, para tentar desmistificar o tema. 

1- Os obrigacionistas estão a ser aconselhados a vender ou não?

Há instituições, como a CreditSights, que estão a aconselhar vender as obrigações. O Novo Banco apresenta-se com uma oferta de compra e, nesse sentido, pretende demonstrar que esta é a solução que defende melhor os interesses da instituição e dos credores. Ou seja, não estar a aconselhar vender, mas está a tentar convencer os detentores a vender.

2- Se venderem que opções têm? Recebem o dinheiro e podem gastá-lo?

Sim, uma das vantagens desta oferta é que se trata de liquidez, o que retira ambiguidades, diferenças de tratamento e permite utilizar o produto da venda imediatamente, a partir de 4 de outubro, data prevista para a liquidação financeira. O risco de litigância é também menor.

3- Têm que aplicá-lo? No quê?

Os vendedores podem fazer o que quiserem com a liquidez. O Novo Banco permite que os investidores de retalho possam fazer um depósito em condições que lhe permitam recuperar perdas. Mas, naturalmente, os investidores de retalho podem não querer fazer o depósito.

4- Quanto perdem se venderem?

Cada caso é um caso porque estes títulos estão a ser negociados em mercado secundário. Ou seja, pode haver quem os tenha adquirido ao  par – e aí terão mais perdas – mas podem ter comprado inclusivamente abaixo do preço a que o Novo Banco está a propor a compra.

5- Se não venderem o que acontece? 

O maior risco, como explica a Moody’s e o próprio Novo Banco, é que a venda à Lone Star, prevista até 20 de outubro, não aconteça o que abre a porta a soluções mais drásticas e penalizadoras dos credores como uma medida de resolução. Mas também pode acontecer, no caso da operação de compra de obrigações falhar, que o Novo Banco apresente uma alternativa. Essa situação não é muito provável tendo em conta que o fim da oferta é em 2 de outubro e, supostamente, o banco tem de ser vendido até dia 20 do mesmo mês.

6- Têm que vender todos para o banco ser vendido?

O plano é que os obrigacionistas “contribuam” com 500 milhões de euros para o reforço de capital do banco. Para tal, o sucesso desta oferta é decisivo. É necessário que 75% dos investidores, em montante, adiram à operação porque se isso acontecer, os restantes têm de vender coercivamente.

7- Quantos obrigacionistas são e qual a percentagem de pequenos investidores?

Em valor, 40% do valor das obrigações está em poder dos investidores de retalho.

8- Isto aplica-se a fundos, institucionais?

Todos os detentores das obrigações são alvo desta oferta de compra. A diferença para os institucionais é que não terão a oportunidade de fazer depósitos em condições vantajosas.

9- Se não houver venda? Isso preocupa os analistas no mercado?

Sim, porque seria mais um evento negativo a atrasar ou impedir o processo de venda. Receia-se que sem esta operação seja necessária uma resolução bancária. Pessoalmente, não considero que seja o mais provável porque os danos em termos de imagem, sistémicos e de risco país pressionam Portugal e até o BCE a encontrar uma solução diferente ou em paralelo com a participação, por exemplo do Fundo de Resolução.

10- Um outro especialista de mercado, que não quis ser identificado por questões de conflito de interesse, acrescenta ainda outra questão pertinente, a da recuperação do capital, após subscrição dos tais depósitos propostos aos investidores de retalho:

“Estamos a falar de 36 emissões obrigacionistas diferentes, por isso a recuperação de parte do valor investido também será diferente”. Acresce que, “no caso das obrigações que pagam juros, se aceitar o tal depósito no Novo Banco, a uma taxa de juro fixa, só recuperar capital e não juros”.

Nas emissões de cupão zero, há uma perda face ao que receberia na maturidade - 2029 ou 2052 - mas tudo vai depender do valor investido, acrescenta o mesmo analista de mercado.

A  aquisição dos títulos teve início terça-feira, 25 de julho, e decorre até 2 de outubro.