Foi uma semana negra para um dos maiores bancos portugueses, que acabou por penalizar a performance do último mês do BCP.

Desde o fecho de sexta-feira passada até hoje [pelas 12h00], o título tinha caído 18% de 0,032 euros para 0,026 euros. Num mês, o banco liderado por Nuno Amado perdeu quase 30% do que vale em bolsa. A 3 de Maio cada ação valia 0,037 euros.

Mas afinal porque cai tanto do BCP? Aspetos técnicos, conjuntura ou especulação. Um pouco dos três dizem os analistas contatados pela TVI.

Um porta-voz do banco, citado pela Reuters, atribui a queda das ações à exclusão do índice MSCI e assegura que as metas não estão comprometidas.

A exclusão do índice MSCI, de ações globais em 23 mercados, empurrou para baixo o título na passada quarta-feira. Um efeito que pode ainda estar a provocar ondas de choque mas há mais.

Houve o tema técnico que levou a este movimento [foi transacionado cerca de 3% do capital do banco num dia] e isso pode ter passado para o resto da semana mas não foi só”, disse à TVI, Nuno Marques, gestor da IM Gestão de Ativos.

O desempenho da economia nacional, com sinais de abrandamento, levantam dúvidas sobre a sustentabilidade da execução orçamental. Se houver uma quebra de confiança, a curva de rendimento sofre e as ‘yields’ vão por aí acima, obviamente, com impacto na banca que sofre porque está exposta a dívida portuguesa”, acrescenta o gestor da IM Gestão de Ativos.

Além disso, “ há o problema dos bancos do sul da Europa, nomeadamente de Itália” e “a fraca rentabilidade da banca em geral”.

Uma opinião partilhada por outros analistas. Numa nota de research, do Goldman Sachs, citados pelo Negócios, o banco de investimento refere que o aumento de capital do espanhol Banco Popular de 2,5 mil milhões de euros, anunciado na passada semana, reforçou os receios e virou as atenções do mercado para outros bancos que podem estar na mesma situação.

Os problemas da banca portuguesa são totalmente comparáveis com os da banca nestes países. Ou seja, há muitas semelhanças entre o Popular espanhol e o BCP”, acrescenta Nuno Marques.

E não é só a Espanha que chama a atenção dos analistas. É mais que referida no mercado a preocupante situação da banca italiana. No passado mês de abril Itália anunciou a criação de um fundo de cinco mil milhões de euros para lidar com o crédito malparado e garantir que os bancos mais fracos possam ser recapitalizados.

O próprio Goldman Sachs na mesma nota, citada pelo Negócios, coloca na lista dos mais vulneráveis o BCP mas destaca também os italianos Monte dei Paschi, Banca Popolare de Milano, Banco Popolare, Banca Emilia Romagna e UBI Banca. O Bank of Ireland também integra esta lista.

Para Nuno Marques, é impossível dissociar o que está a acontecer com o BCP da conjuntura até porque “muitas coisas foram bem feitas no banco. Os números estão lá. A situação do país [e da Europa] é que torna difícil, para qualquer banco, exercer a sua atividade core – emprestar dinheiro e para quem já tem empréstimos emprestá-lo a taxas interessantes”.

As dificuldades em aumentar a rentabilidade, provocadas por uma conjuntura económica adversa e pelo rescaldo da crise de 2008, e o excesso de regulação são transversais à banca, sobretudo, dos países do sul e isso demora tempo.

Aumento de capital e o Novo Banco

Aos aspetos técnicos e estruturais junta-se o fantasma de um possível aumento de capital, necessário para uma eventual compra do Novo Banco.

Aí as opiniões também não se dividem muito.

Acho que o BCP não terá capacidade nem vontade de avançar para a compra do Novo Banco”, diz o gestor da IM Gestão de Ativos.

Um outro analista contato pela TVI, mas que não quis ser identificado, refere “acho que a probabilidade é baixa e sem grande racional”.

Além disso, não é claro para os analistas no mercado se o BCP poderá comprar uma instituição concorrente sem ter pago os 700 milhões em falta das subscrições feitas pelo Estado em forma de obrigações contingentes convertíveis (CoCo’s), para financiar o banco.

De acordo com o Económico, o BCP já fez um pedido para a entrega de um terço do valor que falta pagar, 235 milhões de euros.

Se for possível aumentar o capital [para comprar o Novo Banco] e com a fusão libertar meios até será possível pagar mais cedo ao Estado”, referiu outro analista.