«Ainda hoje não sei se havia ou não investidores privados interessados no banco». Vítor Bento, que liderou o BES durante mês e meio, depois da saída de Ricardo Salgado, disse esta terça-feira que «não houve tempo de fazer esse teste». 
 
​A confissão de Vítor Bento na comissão de inquérito ao BES/GES contrasta com o que o Banco de Portugal veio dizendo publicamente, e no Parlamento, explicando sempre que o destino do BES resultou de uma ordem de planos, que foram sendo eliminados por se verificar que era impossível concretizá-los. O plano A era a recapitalização privada do banco. Vítor Bento reforça que não sabe se essa possibilidade se esgotou mesmo:
 

«Ainda hoje não tenho ideia se haveria possibilidade ou não de haver investidores privados». Ressalvou, no entanto, que o fator tempo era, de facto, importante: «Não havia seguramente para recapitalizar banco em um ou dois dias».

 
Acrescentou, também, que «havia duas grandes incertezas, que era necessário resolver para que se comprometessem». Uma delas era «o caso de Angola», como o designou (a exposição ao BESA) e «a estimativa razoável das provisões necessárias», decorrente da avaliação de ativos que o BCE iria fazer mais tarde. 

«Se poderia haver ou não» recapitalização privada, Vítor Bento não sabe. «É legítimo admitir que o prazo necessário» para esse efeito «poderia ser mais longo e criar dificuldades», reconheceu apenas. 

Interpelado por Miguel Tiago, do PCP, que citou as suas declarações de 30 de julho sobre a efetiva existência de interesse no BES por parte «eventuais acionistas», Vítor Bento esclareceu as afirmações que fez no início desta audição à deputada do CDS Cecília Meireles.

O que quis dizer foi, precisou, que não tem «ideia» se «tinha havido desistência ou não do interesse». Não que não existiam interessados.

«Relativamente à capacidade de concretização, não sei se era possível ou não. Como sabe, tínhamos um assessor financeiro (...) e até aí não nos tinha sido dada nenhuma mensagem de que o interesse [numa eventual recapitalização privada] tivesse desaparecido». 


De qualquer modo, reforçou, «o interesse era condicional». «Não se fechou, não desapareceu», mas «não sei se na hora da verdade estariam lá».

Miguel Tiago aproveitou para perguntar quem eram esses investidores interessados em ficar com o BES. Vítor Bento respondeu de forma genérica: «Eram bancos, fundos de investimento, ou investidores que qualificam também como fundos». E «houve um banco a manifestar interesse, mas não muito substanciado e com uma proposta que não era muito interessante para o banco», disse apenas.