O ex-ministro do CDS-PP Luís Nobre Guedes afirmou esta terça-feira que o sistema foi concebido para «albergar os poderosos e garantir os interesses instalados», anunciando que vai ao congresso do partido «afrontar o poder constituído».

Luís Nobre Guedes participou segunda-feira à noite no Clube dos Pensadores, em Vila Nova de Gaia, onde disse que, estando «afastado da política», vai ao congresso do CDS porque não tem «medo» nem nunca teve, antecipando «um ambiente hostil» já que vai «afrontar o poder constituído».

«E vou-lhes dizer mais ou menos o que vos vou dizer agora: Portugal tem tudo para ser um país excecional. Tenho muitas dúvidas que o atual situacionismo saiba e seja capaz de fazer aquilo que é preciso fazer», sintetizou.

Na opinião do ex-ministro com a pasta do Ambiente e do Ordenamento do Território, «este sistema foi pensado e concebido para albergar os poderosos e garantir os interesses instalados», considerando ser «preciso ter a coragem de mudar o estado das coisas» para que não seja «um poder que é forte com os fracos e é muito fraco com os fortes».

O centrista deu cinco exemplos onde considera que «os fortes ganharam»: as Parcerias Público-Privadas (PPP), os swaps, o BPN, o défice tarifário e os mercados regulados.

«Não é concebível que o poder político seja hoje controlado pelo poder económico. Isto é a subversão de tudo», condenou.

Interrogado sobre a sua relação com Paulo Portas, Nobre Guedes garante ser do CDS e que não renegou o seu partido, manifestando «uma sensibilidade diferente em relação ao modo como as coisas têm sido conduzidas».

«Eu sou do CDS e vou ao CDS dizer o que penso. Provavelmente o CDS vai dizer: obrigadíssimo, não queremos isto para nada porque nós estamos muito bem. O nosso banquete está muito bom. Como eu costumo dizer, é muito difícil sair de um banquete com salmão e caviar para o frango assado. É estar a pedir muito», ironizou.

O ex-ministro disse ainda estranhar que, «em dois anos e meio, haja tanta apatia por parte dos dois partidos que apoiam a maioria governativa».

«Eu acho que a oposição faz o que tem a fazer, que é criticar o Governo. Eu tenho dúvidas de que os partidos que apoiam o Governo façam tudo quanto devem fazer para apoiar o Governo que é deles», explicou.

O advogado defendeu uma revisão da Constituição, que diz não passar «nem por mexer nos princípios da Constituição nem por mexer nos direitos sociais».

«Rever a Constituição passa por ter a coragem de fazer duas coisas no mínimo: reforçar os poderes do Presidente da República e de uma vez por todas fazer a revisão da lei eleitoral que não se quer fazer e sem a qual é impossível voltar a dar credibilidade a este regime», elencou.

Para Nobre Guedes, nem a direita ou o Governo «se devam afirmar por provas de autoridade ou de autoritarismo».

«A direita gosta muito de autoridade e de algum autoritarismo. Eu não gosto. E daí uma das minhas divergências com o meu presidente de partido e amigo, Paulo Portas. É que eu não gosto desse tipo de reação», diferenciou.

O centrista disse ainda não entender cortes de salários e de pensões sem que «duas coisas emblemáticas» sejam feitas: «na próxima legislatura não termos mais de 180 deputados e não era já tempo, passados três anos, de terem extinto pelo menos um concelho?».