O presidente do gigante russo Gazprom, Alexei Miller, disse esta terça-feira que a partir de abril deixará de vender gás à Ucrânia a preços reduzidos.

«Nestas condições, quando a Ucrânia não cumpre as suas obrigações, não cumpre os acordos que se alcançaram com a concessão de um desconto como parte de um contrato, a Gazprom decidiu não continuar a conceder este desconto a partir do próximo mês», disse Miller, citado por agências de notícias russas.

O responsável disse ainda que a empresa vai sugerir um crédito a Kiev de dois a três mil milhões de dólares (entre 1,45 e 2,18 mil milhões de euros) para que possa cobrir a sua dívida do ano passado e pagar os fornecimentos atuais.

O ministro da Energia da Rússia já tinha dito, de acordo com a agência de notícias russa, que não via razão para renovar o contrato entre a Gazprom e a Ucrânia que concedia uma redução no preço que o país paga pela energia vinda da Rússia - um acordo negociado em 2013 e que prevê uma redução no preço até março deste ano.

Por outro lado, a agência de informação financeira Bloomberg noticiou na segunda-feira, citando o porta-voz da Gazprom, que a empresa poderia suspender o fornecimento de energia à Ucrânia caso esta não pague os 1,5 mil milhões de dólares em dívida.

A questão da energia é mais uma das peças em jogo na tensão que tem escalado nos últimos dias e que levou à ocupação da península ucraniana da Crimeia por tropas russas, depois de o Presidente, Vladimir Putin, ter recebido autorização do Parlamento para o efeito, no fim de semana.

O Governo interino da Ucrânia dificilmente conseguirá honrar os compromissos de pagamento do gás a Moscovo, um fornecedor que é responsável por mais de metade da energia consumida no país, até porque está a tentar negociar um empréstimo de 15 mil milhões de dólares com o Fundo Monetário Internacional.

A ameaça da Gazprom complica uma situação financeira já de si difícil para o novo governo ucraniano, que tenta evitar que o país caia na bancarrota, e é mais um exemplo da maneira com o Presidente russo usa a política energética para convencer o seu vizinho ocidental, tendo já cortado duas vezes o fornecimento devido a disputas relacionadas com o pagamento.

Como a Ucrânia tem uma rede de pipelines ainda do tempo soviético que leva mais de metade das exportações russas de gás para a União Europeia, qualquer perturbação na oferta põe a segurança energética da região em risco, escrevia a Bloomberg na segunda-feira.

O gás «é uma típica manobra da Rússia para pressionar a Ucrânia», considera um analista ouvido pela agência financeira, que acrescenta que «na última década o Kremlin usou o gás como arma de pressão política contra as antigas repúblicas soviéticas».