Entre a saída de Ricardo Salgado e a entrada de Vítor Bento na nova equipa de gestão do BES, os prejuízos do banco agravaram-se em 1,5 mil milhões. Ou seja, os resultados negativos de quase 3,6 mil milhões de euros que o BES apresentou como quebra histórica no primeiro semestre deste ano resultaram de atos de gestão ilegais registados em poucos dias, já o escândalo do BES fazia as primeiras páginas dos jornais.

Esta foi uma informação dada pelo governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, durante a conferência de imprensa realizada domingo à noite, uma declaração sem direito a perguntas dos jornalistas.

Carlos Costa revelou: «O agravamento dos resultados do Banco Espírito Santo face ao que era previsível cerca de duas semanas antes é resultado da prática de um conjunto de atos de gestão - anteriores à nomeação dos novos membros da Comissão Executiva - gravemente prejudiciais ao interesse do Banco Espírito Santo e em clara violação das determinações emitidas pelo Banco de Portugal».

O governador do BdP explicou que os atos «praticados num momento em que a substituição da anterior administração estava já anunciada» traduziram-se num « prejuízo adicional na ordem de 1,5 mil milhões de euros face ao expectável na sequência da comunicação do BES ao mercado datada de 10 de julho».

E Carlos Costa enunciou, em detalhe, quais foram as «violações das determinações emitidas pelo Banco de Portugal» por parte da equipa de gestão de Ricardo Salgado, todos alvo de uma «auditoria forense».

Já decorria a «segunda semana de julho» quando o auditor externo identificou as operações que se seguem sem que ninguém da equipa de Ricardo Salgado tenha informado o Banco de Portugal, conforme estaria obrigada por lei.

Desde já, talvez seja importante referir que os atos de gestão que envolveram estas perdas estivessem a ser reportados com a data de duas semanas antes das efetivamente registadas, ou seja, antes do escândalo rebentar.

Eis o que foi detetado:

«1º - A emissão de duas cartas-conforto dirigidas a investidores internacionais não residentes, em violação dos procedimentos internos de aprovação deste tipo de operações. Aprovação que conduziu ao não reconhecimento de uma perda nas contas do Banco Espírito Santo no valor de 267 milhões de euros. Perda com referência à data de 30 de junho de 2014»;

«2º - A realização de operações de colocação de títulos envolvendo o Banco Espírito Santo, o Grupo Espírito Santo e a Eurofin Securities, que determinaram um registo de perdas nas contas do BES no valor de 1249 mil milhões de euros, também com referência a 30 de junho de 2014»;

Mas os problemas - ou como disse o governador Carlos Costa, a «ponta do problema» - foram detetados «em setembro de 2013». Tratava-se de um «esquema de financiamento fraudulento entre empresas do grupo».

«O Grupo Espírito Santo, através de entidades não financeiras, não sujeitas à supervisão do Banco de Portugal e situadas, em muitos casos, em jurisdições que são de difícil acesso, desenvolveu um esquema de financiamento fraudulento entre empresas do grupo. A experiência internacional evidencia que esquemas deste tipo são muito difíceis de detetar antes de entrarem em rutura, em especial quando a atividade é desenvolvida em várias jurisdições», explicou o governador.

Carlos Costa explicou que o «esquema» usado pela equipa de gestão liderada por Ricardo Salgado só foi detetada com uma inspeção extraordinária. «O Banco de Portugal conseguiu identificar uma ponta do problema porque realizou uma ação de inspeção que foi para além do perímetro normal de supervisão, envolvendo uma auditoria às empresas não financeiras que constituem os principais clientes do banco», revelou o governador, que garante que o banco de Portugal teve se fiscalizar as «imparidades das carteiras de crédito de grandes clientes do sistema bancário nacional» para encontrar o fio da meada que ainda terá muito por revelar.