«Eu pertenci ao exército, tinha um general, eu era uma alta patente e esse exército perdeu». É esta a ilação que Amílcar Morais Pires, ex-administrador financeiro (CFO) do Banco Espírito Santo, tira do filme BES, onde esteve 28 anos. Entrou ainda o banco era público e foi subindo até ao topo, mas a sua audição na comissão parlamentar de inquérito ao BES e ao Grupo Espírito Santo ficou muito marcada por «não sei» como resposta e pela tentativa de fugir a certos assuntos. Assumiu ser «um pouco vítima» neste processo e, por várias vezes, invocou o segredo de justiça e o sigilo bancário, que acabou por ser levantado.

«O futuro dirá de quem é responsabilidade efetiva sobre esta situação. A autocrítica que eu fiz é muito pragmática. Um exército que perde, perde os seus generais, mas não é uma crítica definitiva»


Admitiu, já na reta final da audição, que durou seis horas e meia: «Falhámos em algumas coisas». Mas tentou sempre especificar não o mau, mas o bom: «Fizemos coisas boas e ainda hoje, no Novo Banco, duas em cada três PME são dele, tem milhares de colaboradores a trabalhar bem, tem uma lista de clientes significativa. Aquilo que é o Novo Banco é uma parte do BES».

Nesse momento, José Magalhães (PS), que tinha pedido ao ex-CFO uma autocrítica, aproveitou para referir que, «nessas batalhas, normalmente cada um pensa no que podia ter feito e não fez» ou vice-versa. Uma reflexão «dolorosa» e «certamente que a fez», afirmou, em tom de apelo, a Morais Pires. A isso, o ex-administrador do BES respondeu:  «Nós éramos 25 à volta de uma mesa, altas patentes, pessoas qualificadas. Um momento decisivo que abala muito a confiança foi o Etricc II [um exercício exigido pelo Banco de Portugal que visava assegurar uma adequada cobertura de riscos] e as suas consequências. Nesse momento, podíamos ter alternativas: um já disse o que fez, os outros lutaram até ao fim para salvar o BES».

Miguel Tiago (PCP)  ficou sem perceber, fazendo uma pergunta retórica, carregada de ironia: «Como é que um CFO de um banco, todas as respostas hoje diz 'não sei, não sabia de nada', como é que isso justifica o salário?». O deputado comunista deu logo a resposta, antes mesmo de Morais Pires: «A conclusão é que o banco foi mal gerido, quando nem o CFO sabia o que andava lá a fazer. Das duas uma: ou a verdade está escondida, ou o CFO do banco não participava da gestão e fazia má gestão ou era um adorno do banco».

Quando teve oportunidade de falar, o ex-administrador financeiro disse a Miguel Tiago que o deputado estava no seu direito de pensar o que quisesse, mas avisou: «Não aceito que digam que tentei passar ao lado».

Já sobre Salgado descreveu-o como o homem forte, o «responsável máximo», «preocupado com os detalhes», Era «natural» que soubesse de tudo o que se passava no grupo, reconheceu, acabado por admitir até que era o ex-patrão do BES quem comandava pelouros que deviam caber-lhe a si. E mais:

«Já todos concluímos que o dr. Ricardo devia ter saído há mais tempo, porque ele não podia ser o responsável pela blindagem do BES»

A blindagem é o ring fencing exigido pelo Banco de Portugal, para acabar com a exposição do BES ao GES. Ora, era Salgado quem representava simultaneamente os interesses do banco e das holdings da família Espírito Santo, que constituíam o grupo. O ex-CFO acaba por admitir que esse objetivo poderia ser enviesado, dada a concentração de poderes.

Uma concentração tal que, quanto ao investimento de 900 milhões de euros da PT na Rio Forte, que só serviu para perder dinheiro, o ex-dono do BES também entrou em cena na negociação: «Do lado do banco só podia ser o Dr. Ricardo, do lado da PT não sei quem». Morais Pires, que era administrador não executivo da operadora de telecomunicações, assegurou que «nunca sugeriu nenhuma iniciativa de investimento nem na Rio Forte, nem na ESI». 

José Maria Ricciardi: o grande alvo 

O ex-responsável financeiro do BES foi o primeiro interveniente nesta comissão de inquérito a apontar quase todas as baterias a Ricciardi, o primo rival de Salgado que, na sua audição, dia 9 de dezembro, descartou qualquer responsabilidade no que aconteceu e até disse que foi o «único» a querer mudar o rumo das coisas, sentindo-se «traído» por todos os outros. Morais Pires diz que não é bem assim. Pelo contrário. Ricciardi é «uma pessoa muito importante», uma vez que chefia o BES Investimento. E, perante a insistência do PSD em apontar o dedo só a Salgado, disse que o departamento de risco estava nas mãos do primo e que as perguntas sobre isso deviam ter sido feitas há dois dias, quando ele esteve no Parlamento.

«O BESI não tinha mero papel administrativo». Nas operações de papel comercial «de qualquer cliente, incluindo a Rioforte e a ESI», era o BESI «quem definia» e «aprovava» tudo

Como fez questão de frisar, era precisamente a Espírito Santo Internacional que estava no centro de todo o problema. Ou no topo, levando o resto por tabela. «O problema era na ESI: mesmo vendendo tudo no GES não financeiro, ficavam a faltar os 2,4 mil milhões», o buraco encontrado nas contas. E, nisso, fez questão de apontar o dedo a Ricciardi. Já Salgado estava a tentar «trabalhar» para resolver o problema com o aumento de capital de 700 milhões de euros planeado para a Rio Forte e que não veio a concretizar-se. 

Por outro lado, lembrou que o departamento de risco global, controlado por Ricciardi, tinha uma «estimativa muito inferior do pior cenário», de 1,1 mil milhões de euros, a 7 de julho, sendo que, a 23, o Banco de Portugal determinou que se fizesse uma provisão de 2 mil milhões, atirou.

«BES distribuiu papel comercial de forma transparente»

No BES, garante, o papel comercial no olho do furacão foi distribuído «de forma transparente», sem enganar os clientes. E dessas operações, o Banco de Portugal estava a par, acrescentou. Já da venda de papel comercial no restante grupo, disse que não sabia.  

«Podíamos ter sido mais rigorosos com Angola»

Morais Pires admitiu que o BES Angola «tinha má reputação em algumas situações», mas alega que não conhecia as operações que efetuava. «Tinha perfeita autonomia». No entanto, agora, admite que o BES «devia ter sido mais rigoroso e cortado mais, provavelmente». 

«Assumo coletivamente as críticas que está a fazer, mas desde 2012? Eu fiz tudo ao meu alcance para mudar as coisas. Em 2013, não há nenhuma justificação para fazer ajustamento. Há uma garantia que protege o ativo nessa altura», diz, referindo-se à garantia assinada por José Eduardo dos Santos.

«Se me diz que o problema era estarmos a dar crédito sem informação correta e viável e a emprestar dinheiro, mesmo com garantias, mal concedido, aceito essa observação»


Já na segunda ronda de audições, o deputado do PSD, Duarte Marques, anunciou que o seu partido e o CDS-PP vão pedir comprovativos da saída e receção de capital do BES para o BESA. Antes, Morais Pires tinha garantido que «há reportes do conselho de administração» sobre isso.  «Está lá tudo. Tudo»

Tal como Salgado, culpou a medida de resolução pelo fim da garantia de Angola. Até ao dia 11 de julho, garante que «nunca» recebeu «nenhuma indicação» de que a garantia do presidente angolano estaria em causa. «Está escrito na ata», afiançou. 

Apesar de todos os problemas, e como entende que a recapitalização privada era possível, Morais Pires diz que «o BES deveria ter sobrevivido». «Poderia ter-se feito mais nos dias antes da resolução. O fundo de resolução expõe os contribuintes ao risco», defendeu. O Banco de Portugal foi, de resto, o seu segundo alvo, a seguir a Ricciardi. Entende que «as incertezas» geradas por Carlos Costa quanto à transição da liderança do banco geraram «stress». Leia-se, a queda abrupta das ações e a «fuga de depósitos». 

«Fui um pouco vítima de sucessão atabalhoada»

Para além da «interrupção do ciclo de financiamento», «o processo sucessório», em que o Banco de Portugal colocou um travão à sua subida para a liderança, foi «atabalhoado». «Eu fui um pouco vitima das circunstâncias. Humanamente, não é fácil lidar com estas situações», disse, alegando que até estava fora do país, num road show, a 18 de junho, quando Salgado o convidou para o seu lugar. O que não veio a ser aprovado pelo Banco de Portugal. Vítor Bento foi o senhor que se seguiu. Por pouco tempo. 

«Estou de consciência tranquila, alertei os meus colegas, que ficaram de tomar diligências», como se «vê pelas atas entregues ao Banco de Portugal» . «Aceito, coletivamente as responsabilidades todas. Mas não é o CFO que manda no banco todo, nem tinha responsabilidades no risco»


«Curiosamente a minha vida mudou naquele dia», disse Morais Pires, aludindo a 11 de julho, o dia da última reunião no banco, na qual alertou para «a tempestade perfeita». O banco acabou mesmo por ser atingido por um raio que o desmoronou. Entre os escombros, pela sua estimativa, 6,8 mil milhões de euros de depósitos foram à vida no mês fatídico