O ex-ministro da Indústria de Cavaco Silva e presidente do BIC Portugal, Mira Amaral, disse na segunda-feira que o caso português é diferente do irlandês e que o Governo tem que negociar um programa cautelar com a troika.

«Portugal não pode dispensar o programa cautelar, quanto mais não seja para estar de reserva caso seja necessário atuar», afirmou o banqueiro, acrescentando que «a situação está estabilizada em Portugal, as taxas de juro estão a descer, não só da dívida pública como das grandes empresas».

E salientou, citado pela Lusa: «Se tivermos juízo considero que temos condições para ter acesso aos mercados, mas mesmo nesse caso é do mais elementar bom senso ter uma linha de reserva», disse Mira Amaral à entrada dos Prémios Exame para as 500 maiores e melhores empresas portuguesas.

O presidente do Banco BIC disse que Portugal é um caso distinto da Irlanda, já que enquanto este país teve sobretudo um problema com o sistema financeiro que afetou as contas públicas, Portugal tem um «problema de finanças públicas e de crescimento económico».

Apesar disso, Mira Amaral considerou que a Irlanda se pode ter «precipitado» na decisão de regressar aos mercados sem suporte.

Sobre o facto de Portugal não ter uma base negocial para ajudar na definição do programa cautelar, pelo facto de a Irlanda ter decidido prescindir desse suporte, Mira Amaral disse que teria ajudado, mas afirmou que não é impeditivo do sucesso do mesmo.

Já a possibilidade de haver um segundo resgate, após o fim do atual programa de assistência internacional a Portugal em junho do próximo ano, foi afastado por Luís Mira Amaral, que criticou os 4,5% de juros da dívida pública definidos pelo ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, Rui Machete, como limite máximo para Portugal não pedir uma novo pacote de financiamento.

«Não concordo, nem percebo. Não há uma taxa taxativa» para definir o limite, afirmou Mira Amaral.

Mira Amaral deixou ainda várias críticas ao Governo, dizendo que só «está focado em fazer cortes horizontais» na despesa pública em vez de fazer a reforma do Estado. Criticou ainda os cortes nas pensões que o Executivo liderado por Passos Coelho tem feito.

«Não conheço nenhum país europeu que tenha atacado tanto as pensões como este», realçou.

A Irlanda, tal como Portugal, encontra-se sob um programa de ajuda financeira internacional da troika (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional), tendo anunciado na semana passada que vai regressar sozinha aos mercados, sem recorrer a um programa cautelar.