Já não pode voltar atrás, mas nacionalização, nem pensar. A ministra das Finanças nunca equacionou essa possibilidade para o BES, porque isso seria passar o problema para os contribuintes. Na comissão de inquérito ao BES, onde regressou esta quarta-feira, fechando os longos quatro meses de audições, Maria Luís Albuquerque admitiu, no entanto, que a venda do Novo Banco poderá implicar custos.

«Não podemos garantir que não há custos. Temos opções é que permitem minimizar custos: se estão alocados ao sistema financeiro ou aos contribuintes. A nossa opção é os custos serem minimizados tanto quanto possível e, por isso, sejam alocados ao sistema financeiro»


Recorde-se que o governador do Banco de Portugal indicou ontem, também na mesma comissão parlamentar, que o processo de venda do Novo Banco está a decorrer «favoravelmente» e que foram recebidas sete propostas não vinculativas. Hoje, a ministra não descarta que ela possa vir a acarretar custos. A acontecer, isso quereria dizer que o banco seria vendido abaixo do seu valor de mercado.

A governante respondia ao deputado do PCP Miguel Tiago, ironizando que seria ele a manifestar uma «obsessão ideológica» e não a ministra, ao voltar a falar em nacionalizações. «Recusámos e voltaríamos a recusar», afirmou Maria Luís, que contestou as críticas sobre a medida de resolução:

A resolução «foi processo muitíssimo exigente, não atabalhoado, levado a cabo nos prazos; confiança nunca esteve em causa e felizmente continua a não estar. Não conheço nenhuma forma de evitar custos de algo que foi gravoso e que levou ao colapso de um grupo com impacto na economia portuguesa»


A solução que Miguel Tiago preferiria é que seria pior, segundo a ministra, porque passava o problema para os contribuintes. 

Sem falar em valores concretos, a ministra das Finanças também não soube pormenorizar quais os montantes que estariam em causa noutras soluções, como a recapitalização e as nacionalizações. «Seriam superiores e isso não é difícil de demonstrar», referiu, desta vez em resposta a Carlos Abreu Amorim (PSD), lembrando que estas últimas, sobretudo, «são caras». «O custo final da nacionalização do BPN ainda hoje não o sabemos e já lá vão alguns anos», rematou. 

No seu regresso ao Parlamento, a ministra das Finanças reiterou que a medida de resolução foi «a melhor solução» encontrada. Considerou que o BCE podia ter dado mais tempo do que 48 horas para o BES se recapitalizar e não lhe retirar o estatuto de contraparte. Ainda assim, mesmo que tivesse havido mais tempo, Maria Luís deduz que, à falta de interesse de privados, a resolução seria a melhor via. «A decisão do Banco de Portugal foi corajosa», assumiu.

Sobre as declarações de Ricardo Salgado, que disse que o seu banco foi forçado a desaparecer e que o que precisava era, precisamente, de mais tempo, a governante respondeu à letra: «Tempo é dinheiro e isso não haveria no BES». A ministra reafirmou que o Governo ia sabendo sobre o Banco Espírito Santo era através do supervisor e não teve razões para duvidar: «Sim, confiei no Banco de Portugal».

Quanto ao reembolso do papel comercial do Grupo Espírito Santo vendido aos balcões do BES, a ministra considera «lamentável se as pessoas foram induzidas em erro» e admite mesmo que houve quem tivesse sido «enganado», mas descartou que o Governo entre em cena para resolver a situação. 

A ministra revelou, por outro lado, que foram movidos vários processos contra o Estado e contra os supervisores, no âmbito do caso BES.